
Na quinta-feira, 8 de outubro, o canal oficial do PL no WhatsApp publicou uma montagem de Flávio Bolsonaro: rosto em preto e branco no centro, cercado pela expressão “Tropa do Flávio” repetida ao fundo. A peça saiu do ar depois que a semelhança com uma propaganda de Benito Mussolini foi apontada. O partido pediu desculpas e atribuiu o caso a uma coincidência.
A retirada foi necessária, mas não resolve a questão política. A imagem não circulou num perfil anônimo nem numa brincadeira privada. Ela foi distribuída por um canal oficial da legenda do candidato à Presidência. Quando uma campanha escolhe transformar um líder em figura monumental e seus apoiadores em “tropa”, transmite uma ideia de poder baseada em obediência.

Uma imagem com história
Em 1934, a fachada do Palazzo Braschi, então sede do Partido Nacional Fascista em Roma, foi coberta pelo rosto de Mussolini. Ao redor dele, a palavra italiana “Sì” aparecia dezenas de vezes. O catálogo Lombardia Beni Culturali classifica a fotografia histórica como propaganda fascista. A instalação acompanhou um plebiscito controlado pelo regime, no qual a população apenas aprovava ou rejeitava uma lista escolhida pelo próprio poder.
A montagem do PL repete a mesma construção visual: um rosto dominante, em preto e branco, cercado por uma palavra de adesão. O partido afirmou que o PL Jovem se inspirou em “peças gráficas da antiguidade” e não teve intenção de aludir à imagem fascista. A explicação trata da intenção; o efeito público permanece. Mesmo apresentada como coincidência, a semelhança leva para a campanha uma memória política marcada pelo culto ao chefe e pelo apagamento da diversidade.

O culto ao líder empobrece a política
Uma fotografia isolada não basta para definir todo um movimento. O problema está no que ela reforça. O bolsonarismo organiza sua comunicação ao redor de uma família, de inimigos permanentes e da exigência de fidelidade. A palavra “tropa” reduz o cidadão à posição de seguidor. Nesse vocabulário, discordar deixa de ser parte da política e passa a parecer traição.
Essa lógica entra em choque com valores que a direita democrática diz defender. Conservadorismo pressupõe instituições duradouras, limites ao poder e responsabilidade individual. A fé cristã coloca a dignidade humana acima do culto a qualquer governante. Nenhum desses princípios obriga alguém a aceitar uma dinastia política, repetir palavras de ordem ou tratar adversários como pessoas sem valor.
