
Ana Elisa conquistou 524.219 votos em Minas Gerais. Aos 21 anos, foi eleita para a Câmara, mas precisou retirar uma conta de uma rede social do ar depois de receber ameaças de morte e estupro. Enquanto deveria discutir o mandato que começará em 2027, a deputada eleita do PT passou a lidar com a exposição de seus dados pessoais e o medo pela própria segurança.
Neste sábado, 10 de outubro, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que solicitou ao programa de proteção de Minas Gerais uma avaliação de risco e medidas para protegê-la. Na sexta-feira, o Ministério da Justiça já havia pedido uma investigação à Polícia Federal. O resultado da eleição não deu a Ana Elisa o direito de viver: esse direito existia antes de qualquer voto.
A solidariedade virou motivo de ataque
Cleitinho, senador e governador eleito de Minas, havia defendido Ana Elisa em setembro, quando ela denunciou ameaças durante a campanha. Chamou os responsáveis de canalhas e pediu investigação. Seu gesto reconhecia algo elementar: uma candidata adversária não pode ser deixada sozinha diante de ameaças de assassinato e violência sexual.
Em 10 de outubro, o Estado de Minas registrou ataques de bolsonaristas ao governador eleito por seus posicionamentos, entre eles a solidariedade a Ana Elisa. Um dos recados o acusava de trair os eleitores mineiros. A reação também envolvia seu apoio à votação do fim da escala 6x1.
Cleitinho continua apoiando Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. Sua atitude não significa rompimento com o bolsonarismo. O episódio interessa justamente porque ele defendeu uma adversária sem mudar de candidato: até esse mínimo de humanidade foi tratado como desvio por parte da militância.

A violência cobra silêncio de todos
Ana Elisa relatou ataques racistas e misóginos. Segundo a Agência Brasil, uma mensagem recebida durante a campanha foi enviada por alguém que se apresentava como integrante de um grupo supremacista branco. A identificação dos autores e seus vínculos cabe à investigação. Atribuir cada ameaça a uma organização sem provas atrapalharia a responsabilização de quem efetivamente a enviou.
Já os ataques bolsonaristas à solidariedade de Cleitinho foram documentados pela reportagem. Eles expõem uma cobrança de lealdade que atravessa a vida cotidiana: o adversário deve permanecer adversário até quando está em perigo. A pessoa que resolve defendê-lo passa a ser suspeita.
O prejuízo não se limita à deputada. Uma ameaça contra quem foi eleita também alcança quem a escolheu e quem pensa em disputar uma eleição. Quando participar da política exige suportar terror contra si e a família, muita gente abandona o debate. A violência seleciona quais vozes podem ser ouvidas.

