
Ed René Kivitz permanece pastor enquanto enfrenta o bolsonarismo. Em entrevista ao O POVO, em junho deste ano, o religioso da Igreja Batista de Água Branca criticou a tentativa de converter Deus em cabo eleitoral: “Deus não se presta a esse papel”. O protesto veio de dentro da experiência cristã, de alguém que segue pregando e participando de uma comunidade.
Kivitz é conhecido por posições progressistas. Seu exemplo não o transforma em representante da direita conservadora. Ele ajuda a desmontar outra associação que o bolsonarismo procura impor: a de que a fidelidade religiosa exige fidelidade ao movimento. Sua trajetória mostra que a crítica política pode conviver com a continuidade da fé.
O adversário convertido em ameaça
Na entrevista à Folha de S.Paulo publicada em 18 de julho, Kivitz descreveu uma consequência grave da mistura entre religião e guerra política. Quando o outro é apresentado como encarnação do mal, conversar com ele passa a parecer cumplicidade. A divergência deixa de comportar negociação; o adversário precisa ser convertido ou eliminado.
Esse diagnóstico não desqualifica comunidades religiosas. Identifica o uso de uma linguagem de combate espiritual para afastar pessoas do convívio com quem discorda. Um vizinho, colega de trabalho ou familiar passa a ser julgado pela posição eleitoral antes de ser escutado.

A comunidade pode oferecer acolhimento, comida, companhia e ajuda em momentos de luto. Esses vínculos pertencem às pessoas que os constroem. Nenhum dirigente tem o direito de tratá-los como patrimônio de um candidato, nem de transformar a confiança recebida no púlpito em licença para intimidar adversários.
A violência chegou a Aparecida
Em 12 de outubro de 2022, durante a visita de Jair Bolsonaro a Aparecida, apoiadores do então presidente ameaçaram e hostilizaram jornalistas que cobriam o evento. Repórteres do UOL presentes no local relataram que um homem xingou profissionais e tentou avançar contra equipes de reportagem. Trabalhadores de três veículos foram alvo das hostilidades.

O ataque ocorreu num lugar de peregrinação e numa data dedicada à padroeira do Brasil. A presença de símbolos religiosos não tornou a intimidação menos violenta. Usar a fé como cenário para agredir quem trabalha contradiz o cuidado com a vida que se anuncia defender.
