
Diante de empresários em Santa Catarina, em 8 de maio, Flávio Bolsonaro prometeu que a esquerda seria reduzida à insignificância por três ou quatro décadas. “Vocês nunca mais vão ouvir falar de esquerda”, disse, segundo a Folha de S.Paulo. O candidato à Presidência oferecia algo maior que uma vitória eleitoral: a expectativa de enfraquecer por muitos anos a presença de adversários na política.
Esse discurso atinge uma parte da população que continuará existindo, trabalhando, pagando impostos e votando, qualquer que seja o resultado da eleição. Quem disputa a Presidência precisa governar para essas pessoas também. A democracia não distribui direitos conforme o tamanho da bancada ou a preferência do presidente.
Uma maioria tem limites
Em 7 de outubro, Flávio afirmou que pretende encaminhar mudanças na Constituição por meio de propostas de emenda. Mencionou temas penais, eleitorais, do Judiciário e o fim da reeleição, com mandato de quatro ou cinco anos. De acordo com a Folha, atribuiu ao Congresso a definição dos critérios.
São propostas e declarações de campanha. Não equivalem a mudanças já aprovadas, e seu efeito depende do conteúdo que vier a ser apresentado. O ponto político está no poder que o candidato pretende obter para conduzi-las, depois de prometer uma oposição enfraquecida por décadas.
A Constituição exige dois turnos de votação e o apoio de três quintos dos membros de cada Casa para aprovar uma emenda. Também protege o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes e os direitos individuais. Uma maioria parlamentar não recebe autorização para abolir essas garantias.
O pluralismo político está entre os fundamentos da República. Ele permite que grupos diferentes se organizem, disputem eleições e fiscalizem quem governa. A oposição leva ao debate problemas que a maioria gostaria de ignorar. Sem essa possibilidade, a população perde instrumentos para cobrar salário, saúde, educação e limites ao próprio governo.
O ataque às instituições já aconteceu

O Brasil conhece o custo de tratar uma derrota eleitoral como algo a ser desfeito pela força. Em 8 de janeiro de 2023, invasores depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília. Fotografias da Câmara registram vidros quebrados, equipamentos destruídos e a maquete tátil do Congresso danificada. Trabalhadores precisaram recolher os destroços de um ataque à representação de todos.
A tentativa de golpe também chegou ao julgamento criminal. Em 11 de setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão na ação sobre a trama golpista. A decisão atribuiu a ele a liderança do grupo que tentou impedir o funcionamento da democracia.

