A Polícia Federal desmentiu, na sexta-feira (9), a existência do depoimento de Daniel Vorcaro descrito pela revista Veja para sustentar uma acusação contra Lula. A corporação informou que o ex-dono do Banco Master também não entregou os anexos, documentos e informações com aquele conteúdo. A Procuradoria-Geral da República confirmou, em nota própria, que não houve depoimento oral do banqueiro nas negociações de colaboração premiada.
A mentira identificada nas manifestações oficiais é a apresentação daquele relato como depoimento prestado às autoridades. A origem e a integridade do áudio divulgado pela revista são objeto do pedido de investigação da campanha de Lula. A PF informou que encaminhou a notícia-crime à área técnica para as providências cabíveis.
O depoimento desmentido pelas autoridades
A Veja atribuiu a Vorcaro uma narrativa de financiamento irregular de um documentário sobre Lula. Na resposta, a PF negou ter recebido o depoimento e o material descritos na reportagem. Informou ainda que as propostas de colaboração apresentadas pela defesa foram recusadas por não atenderem aos requisitos legais.
A PGR esclareceu que as conversas sobre colaboração foram conduzidas pelos advogados contratados pelo investigado. As propostas chegaram na forma elaborada pela defesa, sem interlocução direta entre Vorcaro e representantes da Procuradoria. O órgão relacionou a ausência de depoimento oral à rejeição da proposta.
A defesa do banqueiro também contestou a apresentação de supostos anexos como parte de uma delação celebrada. Segundo a Folha, investigadores afirmam que a referência a filmes sobre Lula e Michel Temer aparece de passagem em material sobre o filme de Jair Bolsonaro, sem o relato detalhado de irregularidade divulgado pela revista.
A suspeita de gravação dentro da prisão
Procuradores familiarizados com o caso disseram à coluna de Mônica Bergamo, na Folha, suspeitar que o áudio tenha sido gravado na prisão para ser usado contra Lula na campanha. A reportagem também ouviu advogados que consideram possível uma gravação mais antiga, divulgada agora com finalidade eleitoral. As versões divergem sobre quando ela teria sido feita.
A dúvida sobre a origem aparece também na reportagem do Estadão reproduzida pelo UOL. Daniel Bialski, advogado de Vorcaro, reconheceu a voz do cliente, mas disse desconhecer as circunstâncias da gravação. Outro integrante da defesa, Sérgio Leonardo, não reconheceu a autenticidade do material. Identificar uma voz e esclarecer a integridade do arquivo são questões distintas para a perícia.
A campanha de Lula pediu investigação e exame do áudio. Segundo a CNN Brasil, o pacote jurídico reúne duas ações no Tribunal Superior Eleitoral, duas medidas dirigidas à PF e uma ação indenizatória na Justiça do Distrito Federal. A apuração precisa esclarecer quem gravou, quando gravou e como o arquivo chegou à divulgação.
Flávio aproveita o áudio para atacar Lula
Flávio Bolsonaro já usou a gravação para acusar Lula e defender os repasses relacionados ao filme sobre Jair Bolsonaro. A reportagem do Estadão registra que o senador apresentou os valores destinados ao filme de seu pai como patrocínio e tratou a alegação contra Lula como propina.
O efeito político imediato favorece Flávio: a gravação desloca a discussão sobre seus próprios vínculos com Vorcaro para uma acusação contra o adversário. Essa é a leitura editorial do Voa Lula sobre a reação pública do senador. A autoria da gravação e a responsabilidade por sua divulgação ainda precisam ser estabelecidas pela investigação.
O eleitor tem direito a conhecer os desmentidos com a mesma clareza com que recebeu a acusação. A PF negou o depoimento e os documentos descritos; a PGR negou a oitiva do banqueiro. Apresentar a gravação como uma delação oficial contra Lula contraria o que os órgãos responsáveis pelas tratativas informaram.
Fontes consultadas (6)
- Polícia Federal
- Procuradoria-Geral da República
- Folha de S.Paulo
- Mônica Bergamo / Folha
- Estadão / UOL
- CNN Brasil
Transparência editorial: Metodologia · Imagens e transparência · Fontes
Encontrou algum problema?Informe um erro nesta matéria