
Otoni de Paula conhece o bolsonarismo por dentro. Foi aliado de Jair Bolsonaro, participou de seus embates e reproduziu a violência de sua linguagem. Em 2022, chegou a falar em tratar Lula “na bala”. Depois, reconheceu que havia ultrapassado um limite que sua condição de pastor deveria ajudá-lo a preservar.
“Decidi parecer mais com Cristo do que com Bolsonaro”, declarou em 2025, ao afirmar que se arrependia daquela fala. O reconhecimento importa justamente porque vem de alguém que participou do ambiente que agora critica. Sua mudança inclui assumir responsabilidade pelo que disse.
O rompimento preservou suas convicções
Antes disso, numa entrevista à Folha, Otoni já havia feito uma distinção simples: “Eu sou um ex-bolsonarista, porém continuo sendo um deputado de direita e conservador.”
Na mesma entrevista, explicou seu afastamento pela falta de espaço para autocrítica e pela exigência de concordar com Bolsonaro e acompanhar suas escolhas. Sua trajetória desmonta a ideia de que uma família política possa representar, sozinha, toda a direita brasileira. Conservadorismo e religião existiam muito antes dela.
Essa diferença ganha importância quando a fidelidade a um movimento passa a justificar agressões que seus próprios valores deveriam condenar.
A violência atinge pessoas e famílias
Marcelo Arruda comemorava seus 50 anos com familiares e amigos, numa festa decorada com referências ao PT, quando Jorge Guaranho apareceu provocando os convidados e gritando o nome de Bolsonaro. O episódio terminou com o assassinato do aniversariante. Em fevereiro de 2025, Guaranho foi condenado pelo Tribunal do Júri a 20 anos de prisão.
Arruda tinha quatro filhos. Sua família perdeu uma pessoa numa celebração que deveria produzir lembranças felizes. A violência política entrou naquele aniversário e deixou um sofrimento que nenhuma disputa eleitoral encerra.
A liberdade religiosa também foi atingida pela transformação de adversários em inimigos. Em agosto de 2022, Michelle Bolsonaro compartilhou uma publicação que associava encontros de Lula com lideranças de religiões de matriz africana às “trevas”. A fé dessas pessoas foi usada como instrumento de ataque eleitoral.
Defender a própria religião não concede autoridade para humilhar a religião alheia. Quando uma liderança apresenta outra crença como ameaça, ajuda a construir um ambiente em que brasileiros passam a ser tratados como perigosos pelo que professam.

A consciência não pertence a uma família política
Na política institucional, o limite foi ainda mais grave. Em setembro de 2025, o Supremo condenou Bolsonaro por sua participação na tentativa de golpe de Estado. A condenação incluiu tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O conflito havia ultrapassado o debate entre projetos de governo e alcançado o direito da população de escolher seus governantes.

Em outubro de 2026, Otoni declarou apoio a Lula. Continuou se apresentando como conservador, mas fez uma escolha diferente daquela defendida pela família Bolsonaro. Seu rompimento não apagou suas convicções nem seu passado. Demonstrou que uma trajetória política pode ser revista.
O caso também expõe uma responsabilidade das lideranças religiosas. Um púlpito pode acolher dúvidas e diferenças ou transformar a preferência de um pastor numa obrigação para toda a comunidade. Quando a discordância vira motivo de hostilidade, a consciência dos fiéis perde espaço para a disciplina do grupo.
A contribuição de Otoni está em reconhecer que chegou a reproduzir uma linguagem incompatível com os valores que dizia defender. Sua história permite examinar o bolsonarismo sem confundi-lo com toda a direita ou com toda a população cristã. Fé, conservadorismo e consciência própria não pertencem a uma família política.
Nesta eleição, votar contra o bolsonarismo é um ato de rebeldia em defesa de um país mais justo, pacífico e livre para pensar diferente. A democracia precisa desse enfrentamento para que o debate político volte a respeitar a vida, a liberdade e a dignidade da população.
Fontes consultadas (9)
- Folha de S.Paulo, entrevista com Otoni de Paula, 17/10/2024
- Metrópoles, arrependimento pela fala contra Lula, 24/02/2025
- Folha de S.Paulo, julgamento pelo assassinato de Marcelo Arruda, 13/02/2025
- UOL, assassinato de Marcelo Arruda e condenação de Jorge Guaranho, 13/02/2025
- Folha de S.Paulo, publicação de Michelle sobre religiões de matriz africana, 09/08/2022
- Supremo Tribunal Federal, condenações pela tentativa de golpe, 11/09/2025
- Poder360, declaração de voto de Otoni em Lula, 03/10/2026
- Agência Câmara, fotografia de Otoni de Paula, Kayo Magalhães, 10/02/2025
- Agência Câmara, danos no Congresso após 8 de janeiro, Bruno Spada, 09/01/2023
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