
Cleitinho Azevedo, governador eleito de Minas Gerais, apoia Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, foi atacado por bolsonaristas ao defender o fim da escala 6x1 e prestar solidariedade à deputada federal eleita Ana Elisa, do PT, que recebeu ameaças de morte e estupro. A reportagem do Estado de Minas registra acusações de traição por essas duas posições.
Defender descanso para quem trabalha e repudiar ameaças contra uma mulher deveria ser o mínimo para qualquer representante público. Os ataques a Cleitinho revelam a cegueira do bolsonarismo. Também mostram por que o Brasil precisa recuperar uma direita com opinião própria, capaz de discordar da esquerda sem abandonar o respeito à população.
O bolsonarismo político é desumano
Cleitinho apareceu com Davi Alcolumbre, presidente do Senado, para anunciar a previsão de votação do fim da escala 6x1. Entre as críticas citadas pelo Estado de Minas, houve quem quisesse deixar a discussão para depois de uma vitória de Flávio. Para esses apoiadores, o descanso de quem trabalha pode esperar. O interesse eleitoral dos Bolsonaro vem primeiro.
O trabalhador continua pegando ônibus lotado, chegando em casa exausto e tendo pouco tempo para os filhos. Adiar uma melhoria em sua vida para evitar que um adversário ganhe votos é uma escolha desumana. Quem defende essa espera precisa explicar por que sua campanha vale mais que a saúde de quem trabalha.
Júlia Zanatta, deputada federal do PL de Santa Catarina, comemorou a reeleição com um chicote nas mãos, batendo o objeto no chão. Disse que fazia uma brincadeira com uma expressão regional usada para uma vitória expressiva. Ela também votou contra o fim da escala 6x1, conforme o registro da votação divulgado pelo UOL.
A explicação da deputada não apaga o significado de um chicote num país marcado pela escravidão. Tampouco muda seu voto. Quem trabalha seis dias por semana precisa de mais tempo para descansar e conviver com a família. É essa necessidade que deveria orientar a decisão de quem diz representar a população.
Os ataques pela solidariedade a Ana Elisa são igualmente desumanos. Uma mulher ameaçada de morte e estupro precisa de proteção. Seu partido não diminui esse direito. Chamar de traidor quem a defende equivale a cobrar silêncio diante da violência porque a vítima é uma adversária política.
A cegueira do bolsonarista raiz
O bolsonarista raiz aceita essa cobrança. Acredita em qualquer coisa que Bolsonaro diga, defende seus políticos e passa a combater até medidas que melhorariam sua própria vida. Seu descanso, seu conforto e seus direitos ficam em segundo plano. A fidelidade ao líder manda mais que suas necessidades.
É uma lealdade que custa caro. O apoiador entrega a saúde, o tempo com os filhos e a possibilidade de viver além do trabalho para sustentar uma causa que não se preocupa com ele. Aplaude quem rejeita mais descanso e trata como inimigo quem propõe garanti-lo. Os políticos preservam seus privilégios. Ele continua exausto.
Se o benefício vem de Lula, essa obediência exige rejeitá-lo. O trabalhador aprende a agir contra si mesmo para não reconhecer um acerto do adversário. Nenhuma pessoa merece uma lealdade que leve alguém a agir contra a própria vida.
Cleitinho continua apoiando Flávio
Defender essas posições de Cleitinho não apaga seu apoio a Flávio. O senador mantém essa escolha, que merece crítica. Mas reconhecer seu acerto na defesa do trabalhador e de uma mulher ameaçada é necessário para discutir o que está em jogo.
Sua posição sobre a jornada de trabalho antecede os ataques recentes. Em discurso registrado pelo Senado em maio, criticou a resistência a benefícios populares por serem apresentados pelo governo Lula. Na sexta-feira, 9 de outubro, disse ter conversado com Flávio e recebido a indicação de que ele votaria a favor da proposta. Essa informação é de Cleitinho. A votação ainda precisa acontecer, e o voto de cada parlamentar deverá ser cobrado.
Otoni de Paula rompeu com a obediência
O deputado federal Otoni de Paula, do PSD do Rio de Janeiro, é pastor e se declara de direita e conservador. Foi aliado de Bolsonaro, mas rompeu com o bolsonarismo. Em entrevista à Folha em 2024, explicou que o movimento não admitia autocrítica e exigia concordar com o líder e votar nos candidatos que ele indicasse. Sua razão para sair foi simples: queria conservar a própria independência.
Neste ano, Otoni foi além. Declarou apoio a Lula já no primeiro turno e, em 9 de outubro, participou de um ato de campanha do presidente em Ceilândia. Defendeu conversar com evangélicos sobre os danos causados pelo bolsonarismo dentro das igrejas. Continua conservador, mas passou a enfrentar a submissão política que antes ajudou a sustentar.
O exemplo interessa pela mudança de atitude. Otoni reviu suas posições, rompeu com antigos aliados e assumiu uma escolha que poderia desagradar sua base. É essa liberdade que falta a quem rejeita qualquer benefício vindo de Lula e aceita qualquer prejuízo imposto por seu próprio lado.
A volta de uma direita com opinião própria
O Brasil precisa da volta dessa direita raiz: uma direita que tenha ideias próprias, apresente propostas e saiba reconhecer o que melhora a vida da população. Um conservador pode discordar do PT sem transformar os Bolsonaro em donos de sua consciência. Pode fazer oposição e, ainda assim, apoiar mais descanso para o trabalhador e proteger uma mulher ameaçada.
Otoni mostra que é possível romper com o bolsonarismo sem deixar de ser conservador. Cleitinho ainda apoia Flávio, mas suas posições sobre a escala 6x1 e Ana Elisa mostram que até um aliado pode recusar a obediência em questões que afetam a vida das pessoas.
O que a população precisa é de uma disputa política em que sua vida tenha valor. Quem trabalha precisa de saúde, descanso, segurança e tempo para viver. Nenhuma pessoa merece uma fidelidade que custe tudo isso. Recuperar a independência da direita é necessário para que milhões de brasileiros parem de tratar os próprios direitos como um favor que depende da aprovação dos Bolsonaro.
Fontes consultadas (9)
- Estado de Minas, 10/10/2026
- Senado Federal, pronunciamento de 27/05/2026
- Rádio Itatiaia, 09/10/2026
- Poder360, 05/10/2026
- UOL, votação de 28/05/2026
- Câmara dos Deputados, biografia de Otoni de Paula
- Folha de S.Paulo, entrevista de 17/10/2024
- CNN Brasil, 05/10/2026
- Metrópoles, 09/10/2026
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