
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil perdeu o acesso à sua conta oficial no X nesta sexta-feira, 25 de setembro, em plena reta final da eleição presidencial.
A instituição precisou procurar o suporte da plataforma e encaminhar documentos para comprovar que é responsável pelo perfil @cnbbnacional. Enquanto tenta recuperar o acesso, não pode publicar, responder, corrigir informações nem administrar um de seus principais canais de comunicação.
O problema surgiu no momento em que manifestações de bispos em defesa de Nossa Senhora Aparecida, da democracia e da soberania brasileira alcançavam repercussão nacional.
Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, pediu aos fiéis que escolham candidatos comprometidos com o bem comum e reafirmou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Na mesma celebração, deixou um recado direto contra interferências externas:
“Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui. Aqui é nossa soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria.”
Bispos da Regional Norte 1 da CNBB também divulgaram uma orientação aos católicos. Defenderam o voto em candidatos comprometidos com a democracia, os direitos do povo e a proteção da natureza. Rejeitaram políticos com ficha suja, condenaram o uso eleitoral do nome de Deus e afirmaram que a Igreja Católica não pode ser transformada em curral eleitoral.
A conta da principal representação dos bispos brasileiros saiu do controle da instituição justamente quando essas mensagens começavam a ocupar espaço no debate eleitoral.
A CNBB teve de provar que a conta lhe pertence
O comunicado publicado pela CNBB informa que o suporte do X exigiu informações e comprovações sobre a titularidade e a gestão do perfil.
Uma instituição brasileira com mais de sete décadas de história precisou demonstrar a uma empresa norte-americana que é dona de sua própria conta.
O X não apresentou publicamente o motivo da restrição. Também não informou se o acesso foi interrompido por decisão humana, mecanismo automático, denúncia de terceiros ou tentativa externa de tomar o perfil.
O efeito imediato independe da explicação que venha a ser apresentada. A CNBB ficou impedida de falar por um canal oficial quando faltavam nove dias para o primeiro turno.
O episódio ganha peso porque a Conferência já havia adotado uma posição firme sobre a eleição. Em sua mensagem pelo 7 de Setembro, a Presidência da CNBB defendeu “um Brasil livre e soberano, democrático, justo e fraterno”. O documento condenou a manipulação do voto, a corrupção, a desinformação e a instrumentalização da fé.
A presença de Nossa Senhora Aparecida no discurso dos bispos também adquiriu significado político. A campanha passou a conviver com declarações que tentam submeter o Estado brasileiro a uma identidade religiosa determinada. Flávio Bolsonaro prometeu que, caso eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Dom Orlando respondeu reafirmando a Padroeira do Brasil, o respeito à consciência de cada eleitor e a soberania do país. Pouco depois da repercussão dessas manifestações, a conta nacional dos bispos saiu de suas mãos.
Dois dias antes, a Meta bloqueou Lula
A perda de acesso da CNBB não aconteceu em um ambiente normal.
Na quarta-feira, 23 de setembro, a Meta desabilitou a conta utilizada pela campanha de Lula para contratar anúncios no Facebook e no Instagram. A empresa alegou genericamente que algumas atividades não seguiam suas regras, sem indicar uma publicação irregular, uma propaganda proibida ou qualquer conduta específica.
O bloqueio atingiu o principal instrumento disponível para Lula alcançar novos eleitores nas plataformas da empresa.
Pelas regras eleitorais, as redes sociais devem retirar os perfis oficiais dos candidatos dos sistemas de recomendação. As publicações feitas diretamente pela conta de Lula deixam de ser sugeridas pelo algoritmo a pessoas que ainda não seguem o presidente. O impulsionamento pago é a saída legal para ampliar esse alcance.
Foi essa estrutura que a Meta interrompeu a dez dias da votação.
Durante a restrição, a campanha ficou impedida de criar anúncios, veicular peças programadas e utilizar públicos organizados ao longo da eleição. A conta foi posteriormente restabelecida, mas a Meta não explicou o bloqueio nem apresentou um levantamento do impacto causado.
A empresa desligou a comunicação paga de uma campanha presidencial e decidiu religá-la sem prestar contas ao Brasil.
Agora, outra plataforma dos Estados Unidos deixa a CNBB sem controle sobre seu perfil depois de manifestações em defesa da soberania nacional.
A repetição do método chama atenção. As contas permanecem submetidas a decisões internas, critérios secretos e mecanismos que as instituições brasileiras não conseguem auditar. Quando o bloqueio ocorre, a comunicação desaparece imediatamente. Quando o acesso retorna, a explicação continua ausente.
Plataformas estrangeiras dentro da eleição brasileira
Meta e X já exercem poder político no Brasil. Controlam a distribuição das mensagens, administram o acesso aos públicos e decidem quais contas podem falar, anunciar ou alcançar pessoas fora de seus seguidores.
Na semana anterior ao bloqueio de Lula, um teste realizado pela organização Eko submeteu à Meta quinze anúncios políticos falsos, produzidos com inteligência artificial, pagos nos Estados Unidos e direcionados ao público brasileiro. Treze foram aprovados.
Entre eles havia propaganda favorável a Flávio Bolsonaro, mentira sobre a data da eleição, acusações contra as urnas e convocação para repetir o 8 de Janeiro.
A estrutura incapaz de barrar propaganda eleitoral falsa produzida no exterior conseguiu bloquear a conta oficial, registrada e identificada da campanha de Lula.
Ao mesmo tempo, o Tribunal Superior Eleitoral investiga uma rede de centenas de perfis que utilizou publicações colaborativas para ampliar conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro e ataques contra o presidente. Essas contas conseguiram distribuir mensagens eleitorais para públicos que os perfis oficiais dos candidatos não poderiam alcançar pelas recomendações normais.
Redes paralelas circulam. Anúncios falsos atravessam os filtros. A campanha de Lula perde sua publicidade. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil perde o controle de sua conta depois de defender a Padroeira, a democracia e a soberania.
O Brasil está diante de uma interferência concreta na circulação do debate público. Ela ocorre dentro de sistemas privados, sem transparência e sob o controle de empresas sediadas no exterior.
O TSE precisa exigir imediatamente da Meta e do X os registros dos dois episódios. Horários, denúncias recebidas, decisões automatizadas, intervenções humanas, critérios aplicados e alcance afetado devem ser entregues antes da votação.
Também é urgente estabelecer um procedimento capaz de impedir que contas de candidatos, partidos, instituições religiosas, movimentos sociais e veículos brasileiros sejam retiradas do ar ou de seus responsáveis durante os últimos dias da campanha sem análise imediata da Justiça Eleitoral.
No dia 4 de outubro, o voto será depositado nas urnas brasileiras. Até lá, nenhuma corporação estrangeira pode escolher quais vozes chegarão aos eleitores.
Fontes consultadas (7)
- CNBB — comunicado sobre a conta oficial no X
- Poder360 — manifestações de bispos sobre soberania e eleições
- Band — declaração de Flávio Bolsonaro sobre religião e governo
- Folha de S.Paulo — bloqueio da conta de anúncios de Lula
- Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.610
- Folha de S.Paulo — teste da Eko com anúncios falsos
- Voa Lula — matéria anterior sobre o bloqueio da Meta
