Flávio Bolsonaro olha para baixo durante sessão no Senado

Eleições 2026

Deus, grana e orgia

O arquivo do ex-amigo e ex-sócio de Flávio reúne festas privês, presentes de luxo e cobranças de sigilo em período eleitoral.

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Deus, grana e orgia

Mensagens, fotos e documentos guardados por Alexandre Santini, ex-amigo e ex-sócio de Flávio Bolsonaro, expõem festas com garotas de programa, luxo pago por aliados e religião usada como escudo.

Jefferson Rudy/Agência Senado, via PCdoB

O arquivo guardado por Alexandre Santini, ex-amigo e ex-sócio de Flávio Bolsonaro, derruba a fachada moralista que o bolsonarismo tenta vender ao país. Mensagens, fotografias e documentos revelados pelo PlatôBR e detalhados pelo UOL mostram um mundo de festas privês com garotas de programa, presentes caríssimos pagos por gente próxima ao senador e pedidos de silêncio em pleno período eleitoral.

Santini conhecia Flávio de perto. Os dois dividiram uma franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca e acabaram numa disputa judicial por R$ 1,47 milhão. Foi durante esse rompimento que o empresário reuniu o material agora publicado. O retrato que emerge dessas conversas combina luxo, influência, dinheiro e uma religiosidade acionada quando a vida privada ameaça chegar à família e ao eleitor.

O arquivo do ex-sócio

Em uma das conversas, Santini negocia uma festa no hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca. Pede quatro mulheres, cobra novidade e insiste que tudo seja mantido em sigilo porque era período eleitoral. Segundo a reportagem, quando falava de um dos participantes, usava a expressão “meu filho” para se referir a Flávio Bolsonaro.

O acervo também registra o esforço para impedir que as informações chegassem a Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. Depois que Santini procurou a dentista, uma mensagem atribuída a Flávio pediu que ele se afastasse dela. No texto, o senador afirma ter se arrependido de “muitas escolhas erradas” e invoca Deus e a família enquanto tenta encerrar o conflito.

A religião aparece como linguagem de contenção. O mesmo campo político que tenta vigiar a vida íntima de mulheres, pessoas LGBTQIA+ e famílias brasileiras pede privacidade quando o segredo está dentro de casa. A fé, usada todos os dias como arma eleitoral, vira escudo quando o moralismo encontra seus próprios bastidores.

Luxo bancado por aliados

Os documentos vão além das festas. Uma nota fiscal de fevereiro de 2022 registra a compra de um Rolex Submariner Date de ouro branco por R$ 305 mil em nome do advogado Alan Belaciano. De acordo com as mensagens publicadas, o relógio foi comprado para Flávio. Belaciano também pagou mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia instalados na casa do senador em Brasília.

O PlatôBR informa que pessoas próximas ainda bancaram reparos na residência, uma televisão de 75 polegadas e mensalidades de academia. Quando a compra dos equipamentos veio a público, Flávio disse que o dinheiro recebido de um amigo era um empréstimo pessoal em pagamento. O novo conjunto de mensagens amplia o quadro de benefícios privados financiados por integrantes de seu círculo.

Há ainda uma mensagem de Santini sobre a suposta atuação de Flávio junto ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, em favor de um cliente com processo no gabinete. O material relata também a preparação de um jantar com o chefe de gabinete do ministro. A reportagem não identificou o cliente nem o processo. O ponto político permanece grave: o nome de um candidato à Presidência aparece, no relato de seu antigo parceiro, associado a presentes de luxo, despesas pessoais e acesso privilegiado ao poder.

O moralismo perdeu a fantasia

Flávio construiu sua campanha com o vocabulário clássico da extrema direita: Deus, família, ordem e perseguição aos costumes alheios. O arquivo do ex-sócio mostra o avesso dessa propaganda. Nos bastidores, há dinheiro de origem questionada, luxo oferecido por aliados, festas cercadas de sigilo e influência política tratada como ativo pessoal.

O problema público não é a vida sexual de um adulto. É a hipocrisia de transformar religião e família em instrumentos de controle social enquanto o próprio grupo vive sob regras diferentes. Também pesa a origem dos presentes, o pagamento de despesas particulares e o uso possível de relações políticas em benefício privado.

Deus no discurso. Grana nos bastidores. Orgia em segredo. A fórmula resume a real face do bolsonarismo quando o verniz eleitoral cai. Quem passa anos julgando o corpo, a fé e a família dos outros agora precisa responder por seus próprios documentos. A casa caiu.

Fontes consultadas (3)
  • PlatôBR, Segredos de Flávio: mulheres, negócios, um Rolex de R$ 300 mil e lobby com Kassio, 29 de setembro de 2026
  • UOL, Ex-sócio diz que amigo deu Rolex de R$ 305 mil a Flávio e cita lobby com Kassio no STF, 29 de setembro de 2026
  • UOL, Mensagens indicam festas com prostitutas envolvendo Flávio Bolsonaro, 29 de setembro de 2026
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