
Hitler e Hindenburg no Dia de Potsdam, em 21 de março de 1933. Foto: Theo Eisenhart/Bundesarchiv · Bild 183-S38324.
Em 30 de janeiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler chanceler da Alemanha. O Partido Nazista havia se tornado a maior força do Parlamento, sem conquistar maioria absoluta nas eleições livres. Dirigentes conservadores aceitaram a aliança porque acreditavam que poderiam limitar o poder do novo chefe de governo.
A decisão colocou o nazismo dentro da estrutura de Estado. A influência conquistada nas eleições encontrou o apoio de lideranças que buscavam aproveitar sua mobilização. A aposta no controle de Hitler ajudou a entregar a ele os instrumentos que depois seriam usados contra o pluralismo.
A força eleitoral nazista havia crescido em meio à Grande Depressão, ao desemprego e à incapacidade dos governos de responder à crise. Em julho de 1932, o partido recebeu cerca de 37% dos votos; em novembro, caiu para aproximadamente 33%. Continuava sendo a maior bancada, mas a decisão de entregar a chancelaria dependia de uma aliança.

Essa dependência torna central a responsabilidade dos dirigentes conservadores. Eles possuíam poder de negociação e aceitaram colocar Hitler no comando. O prestígio das instituições passou a proteger uma liderança que já havia apresentado seu projeto de exclusão e sua disposição para a violência.
A presença de aliados experientes no gabinete alimentava a expectativa de controle. O cálculo tratava a mobilização nazista como recurso a ser usado por outras forças. Hitler, porém, passou a dirigir o aparelho estatal e ganhou meios para mudar as condições em que os próprios aliados atuavam.
O erro estava em avaliar apenas a composição imediata do governo. O poder de nomear, reprimir e controlar a informação podia alterar rapidamente a correlação de forças. Uma garantia informal entre dirigentes dependia de um adversário disposto a respeitá-la.
A nomeação também modificou a posição dos cidadãos diante do movimento. A violência de uma organização passou a encontrar a autoridade e os instrumentos do Estado. O que antes exigia ameaça nas ruas podia ser executado por decisões oficiais, retirando direitos e enfraquecendo quem tentava contestar.
O acesso ao governo acelerou o projeto autoritário. Após o incêndio do Reichstag, em fevereiro, um decreto de emergência restringiu liberdades civis e deu respaldo à perseguição de opositores. Em março, a Lei de Plenos Poderes permitiu ao gabinete legislar sem o Parlamento, inclusive contra a Constituição.
Em poucos meses, a capacidade de oposição foi destruída. O Partido Nazista passou a ser o único partido legal em julho de 1933. As autoridades que haviam aceitado negociar com Hitler deixaram de atuar num sistema em que adversários podiam disputar o poder em condições livres.
A experiência revela o peso das alianças que tornam uma liderança autoritária governável aos olhos das elites. A violência e a hostilidade às instituições podem ser tratadas como excessos administráveis enquanto o movimento oferece votos, presença nas ruas e uma base organizada.
No Brasil, o bolsonarismo recorreu à apresentação de instituições de controle como obstáculos à vontade dos apoiadores. Ataques ao Judiciário e ao resultado eleitoral alimentaram uma mobilização que chegou à invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
A disputa sobre limites institucionais continuou no debate político. Em 7 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro defendeu mudanças constitucionais por propostas de emenda, incluindo reforma do Judiciário, redução da maioridade penal, fim da reeleição e alterações tributárias. Segundo o UOL, apresentou a agenda como uma redemocratização e questionou se o país vivia uma democracia plena.
O desenho de uma reforma define quem passa a mandar, quem pode fiscalizar e quais direitos permanecem protegidos. A concentração de poder se torna concreta quando uma autoridade ganha condições de enfraquecer a oposição ou retirar a fiscalização sobre seus próprios atos.
A propaganda também participa dessa construção. Ao apresentar apenas os seguidores do líder como representantes legítimos do povo, um movimento reduz os demais cidadãos à condição de obstáculo. A diversidade política passa a ser descrita como ameaça à unidade nacional.
Na Alemanha, essa lógica integrou um projeto de perseguição que atingiu adversários políticos e colocou o antissemitismo no centro da ação estatal. O nazismo transformou preconceito em exclusão legal, violência e genocídio.
A nomeação de Hitler foi uma decisão de pessoas que possuíam autoridade para fechar ou abrir a porta do governo. Elas escolheram abrir. O poder recebido dentro das instituições foi usado para destruir a possibilidade de alternância.
A história de 1933 registra o fracasso de uma aposta política: conter uma liderança autoritária depois de lhe entregar os meios de governar. As garantias democráticas desapareceram enquanto seus antigos responsáveis imaginavam preservar o controle.
Fontes consultadas (4)
Theo Eisenhart/Bundesarchiv · Bild 183-S38324. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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