Papa Leão XIV, em vestes litúrgicas claras, fala ao microfone enquanto segura uma folha em uma igreja

Democracia

Papa rejeita extrema direita vestida de religião

Leão XIV afirma que ódio e divisão contradizem o Evangelho. No Brasil, a fala chega após o ataque sem provas de Flávio Bolsonaro à CNBB.

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Papa Leão XIV diz que extrema direita misturada à religião não representa o cristianismo

Em entrevista no voo de Metz a Roma, o pontífice afirmou que a combinação entre extrema direita e religião não expressa o cristianismo. A declaração repercute no Brasil no momento em que Flávio Bolsonaro tenta conter o desgaste causado por seu ataque à CNBB.

Imagem criada por IA a partir de reprodução publicada pelo Metrópoles

O papa Leão XIV fez uma das declarações mais diretas de seu pontificado sobre a apropriação da fé pela extrema direita. Em entrevista a jornalistas no domingo, 28 de setembro, durante o voo de Metz para Roma, ele afirmou que posições da extrema direita misturadas a um certo tipo de religião não representam uma expressão autêntica do cristianismo.

A resposta veio após uma pergunta sobre a queda do número de fiéis na Alemanha e o crescimento de movimentos extremistas. O pontífice reconheceu que a relação entre os dois fenômenos merece estudo, mas traçou uma fronteira clara entre o Evangelho e projetos políticos baseados na intolerância.

Ódio e divisão não são Evangelho

Leão XIV afirmou que os valores cristãos devem produzir compreensão, compaixão e acompanhamento. Para ele, ódio e divisão caminham na direção oposta. A fala atinge o centro da estratégia de grupos que usam símbolos religiosos para transformar adversários políticos em inimigos morais.

O papa também defendeu a participação política das pessoas de boa vontade, com escolhas guiadas pelo bem comum. Pediu que a maioria da sociedade rejeite ideias extremistas capazes de provocar danos maiores e afirmou que os valores da Igreja devem gerar vida, não destruição e separação.

A mensagem tem força porque recusa o monopólio religioso reivindicado pela extrema direita. Nenhum grupo político recebe autorização para falar em nome de todos os cristãos. Quando a fé é usada para justificar humilhação, perseguição e mentira, o problema já não é apenas eleitoral. É uma ruptura com os valores que o próprio papa colocou no centro do cristianismo.

O contexto brasileiro

No Brasil, a declaração encontra um cenário marcado pela exploração eleitoral da fé. Flávio Bolsonaro tentava conter o desgaste depois de acusar, sem apresentar provas, pessoas de dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de colaborar com uma informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida.

A CNBB negou ter produzido ou autorizado conteúdo eleitoral falso. Em nota, reafirmou que suas manifestações públicas nascem de sua missão pastoral e da defesa da dignidade humana, do bem comum, da democracia e da liberdade de consciência. A entidade respondeu a uma acusação grave feita por um candidato à Presidência em plena reta final da campanha.

Depois de atacar a CNBB, Flávio apareceu segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e agradeceu à entidade. A mudança de tom não apaga a acusação anterior. Analistas ouvidos pelo UOL compararam a ofensiva à tática de movimentos internacionais de extrema direita que antagonizam setores da Igreja quando autoridades religiosas contrariam seus interesses políticos.

Fé não é arma eleitoral

O Brasil conhece o custo de misturar religião, desinformação e autoritarismo. A fé de milhões de brasileiros não pertence a candidato algum. Católicos, evangélicos, integrantes de religiões de matriz africana, espíritas, judeus, muçulmanos e pessoas sem religião têm o mesmo direito à cidadania em um Estado laico.

A defesa da democracia feita por Lula inclui liberdade religiosa e respeito à consciência de cada pessoa. Isso exige enfrentar tanto a perseguição religiosa quanto o uso cínico da fé para espalhar medo e conquistar voto. A esquerda democrática não precisa disputar altar. Precisa defender o povo de fé contra quem transforma devoção em ferramenta de campanha.

A declaração de Leão XIV oferece uma referência moral objetiva para esse debate. Cristianismo não pode ser reduzido a ódio, divisão e culto ao poder. No Brasil, a resposta deve ser firme: igreja não é comitê eleitoral, símbolo religioso não é escudo para mentira e democracia não se curva diante de quem tenta governar pela intimidação.

Fontes consultadas (5)
  • Vatican News: entrevista de Leão XIV no voo de Metz a Roma
  • Sala de Imprensa da Santa Sé: discurso de Leão XIV em Metz
  • Agência Brasil: CNBB nega envolvimento em polêmica eleitoral
  • UOL: ataques de Flávio à CNBB lembram tática da extrema direita internacional
  • Folha de S.Paulo: papa rejeita extrema direita como expressão autêntica do cristianismo
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