
Diplomacia
A diplomacia dos governos Lula e a busca por um Brasil mais presente no mundo
Da aproximação com a África à presidência do G20, a política externa brasileira tentou diversificar parceiros e ampliar a influência do país.
Imagem ilustrativa criada com IA
Uma diplomacia que ampliou os caminhos do país
Nos primeiros governos Lula, o Brasil procurou falar com mais regiões e participar de mais mesas. A relação com parceiros tradicionais continuou, enquanto o país abriu espaço para América do Sul, África, Ásia e Oriente Médio. Essa presença tinha objetivos políticos e econômicos: ampliar mercados, buscar cooperação, defender reformas nas instituições internacionais e aumentar a margem de decisão brasileira.
O movimento apareceu na criação e no fortalecimento de fóruns como IBAS, BRICS, Unasul, Celac e G20 comercial. Também chegou a áreas menos visíveis, como cooperação em agricultura, saúde e políticas sociais. Em negociações globais, o Brasil passou a apresentar propostas e articular grupos com interesses semelhantes.
Diplomacia envolve resultados lentos, interesses que mudam e negociações que nem sempre chegam a acordo. Algumas iniciativas perderam força; outras ganharam vida própria. A presença internacional tampouco elimina contradições dentro do país. O que marcou o período foi a escolha de participar com agenda própria e relações mais variadas. Para um país do tamanho do Brasil, ter mais interlocutores significa depender menos de um único caminho e contar com mais opções quando comércio, clima, paz, saúde ou financiamento entram em jogo.
1. Brasil de volta ao mundo
Governo ou período Governos Lula I, II e III
Da aproximação com a África à presidência do G20, a política externa brasileira tentou diversificar parceiros e ampliar a influência do país.
Uma mudança de direção em 2003
Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência em janeiro de 2003, o Brasil já mantinha relações importantes com Estados Unidos, Europa e países vizinhos. A nova política externa, porém, procurou ampliar esse campo de atuação.
A estratégia combinava relações com parceiros tradicionais e uma aproximação mais intensa com América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. Também defendia maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões econômicas e políticas internacionais.
Essa orientação ficou conhecida como diplomacia ativa e altiva, expressão associada ao então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Na prática, significava buscar mais espaços de negociação para o Brasil e evitar que a política externa ficasse concentrada em poucos parceiros.
As primeiras pontes
Em novembro de 2003, Lula realizou uma viagem oficial que passou por São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, África do Sul e Namíbia. A visita ajudou a sinalizar que as relações com o continente africano receberiam atenção política direta.
No mesmo ano, Brasil, Índia e África do Sul criaram o Fórum de Diálogo IBAS. Os três países eram grandes democracias do Sul Global e buscavam coordenar posições em temas internacionais, além de desenvolver iniciativas de cooperação.
Em maio de 2004, Lula realizou uma visita de Estado à China. A agenda incluiu instrumentos nas áreas de comércio, ciência, tecnologia, infraestrutura e turismo. A relação com o país asiático seria ampliada nos anos seguintes, acompanhando o crescimento da importância econômica da China para o Brasil.
O governo também apoiou mecanismos que aproximavam regiões que mantinham pouco diálogo direto. Em 2005, Brasília recebeu a primeira Cúpula América do Sul–Países Árabes. A reunião abriu um canal político, econômico e cultural entre duas regiões que normalmente se relacionavam por intermédio dos Estados Unidos ou da Europa.
A prioridade sul-americana
A integração da América do Sul ocupou posição central nessa política externa.
Em 2007, a Declaração de Margarita criou o Conselho Energético Sul-Americano. No ano seguinte, chefes de Estado e de Governo assinaram em Brasília o Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas, a Unasul.
A proposta era criar um espaço regional de diálogo político, infraestrutura, energia, saúde, defesa e cooperação. Em dezembro de 2008, foi instituído o Conselho de Defesa Sul-Americano, iniciativa apoiada pelo Brasil.
Esses organismos não eliminaram divergências políticas entre os países. A Unasul perdeu força nos anos seguintes, quando mudanças de governo alteraram as prioridades regionais. O terceiro governo Lula retomou a participação brasileira na organização em 2023 e promoveu uma reunião com líderes dos 12 países sul-americanos.
O encontro produziu o Consenso de Brasília, documento voltado à retomada do diálogo e da cooperação. O consenso, entretanto, não criou uma nova organização regional nem resolveu as diferenças existentes entre os governos.
O surgimento do BRIC
Outra frente foi a articulação entre grandes economias emergentes.
Em junho de 2009, Brasil, Rússia, Índia e China realizaram na Rússia a primeira cúpula formal do BRIC. No ano seguinte, Brasília recebeu a segunda reunião de líderes do grupo.
Naquele momento, a África do Sul ainda não fazia parte do bloco, por isso a sigla utilizada era BRIC. Com sua entrada posterior, o grupo passou a ser chamado de BRICS.
O objetivo não era formar uma aliança militar ou substituir todas as instituições existentes. Os participantes buscavam coordenar posições e aumentar a influência dos países emergentes em temas como comércio, financiamento do desenvolvimento e reforma da governança internacional.
Mediação e riscos diplomáticos
A tentativa de ampliar o papel brasileiro também levou o país a temas mais difíceis.
Em maio de 2010, Brasil e Turquia negociaram com o Irã a Declaração de Teerã, baseada em uma proposta de troca de combustível nuclear. A iniciativa buscava criar uma saída diplomática para parte do impasse sobre o programa nuclear iraniano.
A declaração não encerrou a crise. Pouco depois, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou novas sanções contra o Irã. O episódio mostrou tanto a disposição brasileira de participar de negociações complexas quanto os limites da influência de uma potência intermediária diante das grandes potências.
No final de 2010, o Brasil reconheceu oficialmente o Estado da Palestina com base nas fronteiras de 1967. A decisão teve importância diplomática, mas o reconhecimento brasileiro não significava que o conflito estivesse resolvido ou que um Estado palestino plenamente soberano tivesse sido estabelecido.
A retomada em 2023
Ao voltar à Presidência em 2023, Lula encontrou um cenário internacional marcado pela rivalidade entre Estados Unidos e China, pela guerra na Ucrânia, pelas mudanças climáticas e por disputas sobre comércio e tecnologia.
Um balanço oficial daquele ano registrou 24 visitas oficiais em quatro continentes e encontros com mais de 60 chefes de Estado ou de Governo de pelo menos 55 países.
Esses números mostram a intensidade da agenda, mas não medem sozinhos seus resultados. Uma reunião pode abrir uma negociação, recuperar um canal político ou produzir um acordo. Também pode terminar sem resultado imediato.
Por isso, o impacto da diplomacia precisa ser observado em cada caso: um tratado comercial pode levar anos para entrar em vigor; um compromisso climático depende de financiamento e execução; uma declaração política não possui necessariamente força jurídica.
O G20 e o combate à fome
O Brasil presidiu o G20 entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. O governo colocou entre suas prioridades o combate à fome e à pobreza, o desenvolvimento sustentável e a reforma das instituições internacionais.
A Cúpula de Líderes aconteceu no Rio de Janeiro em novembro de 2024. A declaração final foi adotada por consenso, resultado que exigiu negociação entre países com posições muito diferentes.
Durante a presidência brasileira também foi criado o G20 Social, espaço destinado à participação de organizações e grupos não governamentais no ciclo de debates.
Outro resultado foi o lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que começou com 148 membros fundadores, incluindo 82 países, a União Africana e a União Europeia.
A criação da aliança não elimina a fome por si só. Seu objetivo é aproximar governos, organizações, conhecimento técnico e fontes de financiamento para apoiar políticas públicas.
Como a diplomacia chega à vida cotidiana
Política externa pode parecer distante, mas suas decisões influenciam exportações, empregos, preços, acesso a tecnologias, cooperação científica, proteção ambiental e financiamento de projetos.
Um acordo comercial pode reduzir tarifas, mas também aumentar a concorrência em determinados setores. Uma parceria científica pode facilitar pesquisas conjuntas. Uma negociação climática pode mobilizar recursos, mas depende de compromissos nacionais posteriores.
Os resultados raramente surgem em uma cerimônia ou em uma única viagem. Diplomacia envolve relações construídas durante anos, documentos negociados por equipes técnicas e decisões que muitas vezes atravessam diferentes governos.
A principal característica da política externa dos governos Lula foi a busca por diversificar essas relações. O Brasil procurou manter diálogo com as potências tradicionais e, ao mesmo tempo, abrir canais com países e regiões que tinham menor participação na ordem internacional.
Avaliar essa estratégia exige observar o que foi anunciado, o que foi assinado, o que entrou em vigor e o que realmente produziu resultado.
Destaques de dados
- 2003: criação do IBAS por Brasil, Índia e África do Sul
- 2009: primeira cúpula formal do BRIC
- 2024: presidência brasileira do G20 concluída no Rio de Janeiro
Fontes consultadas (5)
- Ministério das Relações Exteriores — Política externa do governo Lula — 2005
- Biblioteca da Presidência da República — Viagens internacionais de Luiz Inácio Lula da Silva — 2003–2010
- Ministério das Relações Exteriores — Tratado Constitutivo da Unasul — 2008
- BRICS — Declaração da Primeira Cúpula — 2009
- G20 Brasil — Declaração de Líderes do Rio de Janeiro — 2024
Atualizado em 22 de setembro de 2026
