
Preparação de vacina contra a Covid-19 no Rio de Janeiro, fevereiro de 2021. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.
Ângelo apoiou Bolsonaro nas redes sociais porque queria alternância de poder. Em 2021, ao conversar com o Jornal Opção, já criticava a política ambiental e a condução da pandemia. Uma morte por Covid-19 na família tornara as discussões sobre o governo especialmente dolorosas.
Identificado por um pseudônimo na reportagem, contou que conhecia pouco a trajetória parlamentar do candidato quando decidiu votar nele. A expectativa de experimentar um governo diferente pesara mais do que o conhecimento de suas posições anteriores.
Depois da eleição, passou a pesquisar o histórico de Bolsonaro e a avaliar as decisões do governo. As críticas envolveram o meio ambiente, a resposta à crise sanitária e os atritos diplomáticos com parceiros comerciais.
A ideia de alternância havia oferecido uma justificativa simples para o voto. Depois da posse, a avaliação passou a incluir a pessoa escolhida, sua trajetória e os efeitos de suas decisões. O critério inicial deixou de responder ao que acontecia no governo.
No meio ambiente, os registros do Inpe ajudavam a acompanhar o tamanho do problema. A estimativa do Prodes para 2020 apontou 11.088 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal. A informação produzida por satélite dava dimensão ao afastamento entre a proteção esperada e a destruição observada.
Na pandemia, a investigação parlamentar documentou negociações de vacinas e decisões do Executivo. O depoimento da Pfizer à CPI registrou ofertas de doses em 2020 e a assinatura do primeiro contrato em março de 2021. A sucessão de datas permitia discutir escolhas governamentais sem depender apenas das versões que chegavam por vídeo.
O luto mudava o sentido dessa circulação. Uma mensagem enviada para defender o presidente podia chegar a alguém que tinha perdido um familiar e estava tentando compreender a resposta pública à doença. A conversa exigia reconhecer a experiência vivida pelo interlocutor.
Preservar uma amizade nesse ambiente depende de espaço para recusar uma mensagem e explicar a recusa. Uma relação em que só o apoio pode ser dito deixa o sofrimento do outro sem lugar. Ângelo buscava conservar os vínculos enquanto tornava sua crítica conhecida.
O apoio de 2018 já havia provocado conflitos com familiares de esquerda. Ao mudar de opinião, Ângelo enfrentou outra dificuldade: preservar as amizades com pessoas que continuavam defendendo o presidente.
Vídeos e mensagens seguiam chegando por essas relações. Entre os antigos eleitores, alguns também se decepcionaram; outros mantiveram o apoio. A convivência passou a exigir espaço para falar sobre perdas e decisões do governo sem transformar cada conversa em um novo rompimento.
Ângelo queria expressar sua crítica e conservar os vínculos pessoais. O luto havia dado às divergências um peso que ultrapassava a disputa de argumentos.
Na entrevista de junho de 2021, Ângelo citou o desmatamento, os incêndios no Pantanal e o enfraquecimento dos órgãos ambientais entre as decisões que o afastaram do governo. A pandemia aprofundou a ruptura, especialmente depois de uma morte por Covid-19 na família.
Ele também passou a pesquisar o passado militar e parlamentar de Bolsonaro, que conhecia pouco em 2018. Criticou ainda atritos com a China e a demora em reconhecer a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, por considerar que a política externa prejudicava interesses brasileiros.
Fontes consultadas (3)
Tânia Rêgo/Agência Brasil. Origem da imagem Imagens e transparência · Metodologia
← Voltar para Gente como você