
CoronaVac em Brasília, janeiro de 2021. Foto: Breno Esaki/Agência Saúde.
Paulo Júnior votou em Bolsonaro por rejeição ao PT. Em 2021, o servidor público contou ao Jornal Opção que as alianças com o Centrão e a condução da pandemia haviam transformado aquela escolha em arrependimento.
Identificado sem sobrenome na reportagem, disse que chegara a pedir votos no primeiro turno de 2018. No segundo, já havia reduzido o envolvimento com a campanha.
O relacionamento do governo com o Centrão frustrou sua expectativa de renovação. A crise sanitária aprofundou a decepção: diante das mortes e da atuação do Executivo, Paulo passou a julgar a gestão também pelo tratamento dispensado à vida das pessoas.
A rejeição ao PT havia ocupado o centro da escolha, mesmo sem entusiasmo por Bolsonaro. Depois, a experiência do governo colocou outros critérios na frente: como o presidente agia, com quem negociava e de que maneira respondia à emergência sanitária.
As ofertas de vacinas feitas em 2020 e documentadas na CPI permitem acompanhar essa mudança de prioridade. Doses, contratos e prazos eram decisões de administração pública com efeitos sobre a proteção da população. A identidade do adversário eleitoral já não respondia à cobrança por essas entregas.
A negociação política também tinha uma dimensão material. O orçamento secreto, julgado inconstitucional pelo STF em dezembro de 2022, obscurecia quem solicitava recursos e quais beneficiários eram atendidos. A promessa de renovação encontrava práticas que dificultavam a fiscalização.
A revisão compartilhada na família diminuía o custo de falar sobre a decepção. Quando várias pessoas reconhecem problemas no governo que elegeram, a conversa pode deixar de ser uma disputa sobre quem errou primeiro. O foco se desloca para aquilo que passaram a observar juntos.
A experiência de Paulo expõe o limite de uma escolha organizada exclusivamente contra um partido. O vencedor também governa, decide sobre vidas e distribui poder. Passa a responder pelo próprio mandato, mesmo diante de eleitores que começaram por rejeitar seu adversário.
A revisão ocorreu dentro de sua família. Os parentes haviam feito a mesma escolha eleitoral e, segundo contou, também estavam arrependidos. A experiência compartilhada do governo abriu espaço para uma mudança conjunta.
O antipetismo havia dado direção ao voto, mas perdeu força como justificativa para continuar apoiando Bolsonaro. A avaliação do mandato passou a ser determinada pelas alianças feitas e pela resposta à emergência sanitária.
Para Paulo, a pandemia tornou concreta a distância entre a escolha de 2018 e aquilo que estava disposto a defender depois de acompanhar o governo.
O arrependimento chegou a um ponto pouco comum em sua família: segundo Paulo, os parentes que também haviam votado em Bolsonaro estavam dispostos a pedir votos ao PT caso a eleição seguinte fosse disputada entre Lula e o então presidente.
Sua crítica à pandemia foi particularmente dura. Paulo descreveu a atuação federal como uma demonstração de desprezo pela vida humana. A insatisfação não se limitava a divergências econômicas ou às alianças partidárias.
Fontes consultadas (3)
Breno Esaki/Agência Saúde. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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