O engenheiro eletricista Edson Garcia se decepcionou com o governo Bolsonaro e continuou conservador. Ao Jornal Opção, em junho de 2021, relatou que retirar o apoio ao presidente provocava acusações e tentativas de desqualificação entre antigos aliados.
As escolhas do governo haviam frustrado sua expectativa de mudança. Edson questionava as alianças políticas e a relação com setores militares. Julgava o presidente pela distância entre o que prometera na campanha e o que entregara depois de assumir.
Na crítica de Edson, a promessa de combater privilégios encontrara um governo que distribuía poder a seus próprios aliados. A cobrança atingia a distância entre o discurso de renovação e a prática de proteção dos grupos próximos ao presidente. A decepção nascia dentro dos critérios que haviam sustentado seu apoio.
A disputa sobre dinheiro público teve um desdobramento institucional importante. Em dezembro de 2022, o STF julgou inconstitucional o uso das emendas de relator que ficou conhecido como orçamento secreto. A falta de transparência sobre solicitações e beneficiários impedia acompanhar quem decidia o destino dos recursos.
Uma política que se apresenta como combate à corrupção fica sujeita ao mesmo exame aplicado aos adversários. Identificar o responsável pela verba, seu destino e os critérios usados para distribuí-la permite cobrar o governo. A defesa automática do presidente ocupa esse espaço quando transforma toda fiscalização em ataque inimigo.
Edson também mantinha posições conservadoras e críticas a movimentos sociais. O afastamento do presidente preservava parte do universo de ideias que o aproximara dele. A ruptura podia nascer da avaliação das alianças e do funcionamento do governo, mesmo antes de uma revisão mais ampla das convicções do eleitor.
O rótulo de traidor usado contra quem discorda resolve esse conflito em favor da liderança. Ele evita responder à crítica e exige que o integrante prove lealdade. Quanto mais a permanência depende dessa prova, menos espaço existe para comparar promessa, decisão e resultado.
A cobrança dos apoiadores acrescentava outro problema. A crítica a uma decisão do governo era tratada como deslealdade. Para quem passava a discordar, tornava-se necessário enfrentar também a reação das pessoas com quem antes compartilhava argumentos e expectativas.
Edson manteve convicções conservadoras ao longo desse processo. Sua mudança estava ligada à avaliação de uma liderança e de suas decisões. Retirar o apoio era uma forma de cobrar o projeto que o fizera votar em 2018.
O desencanto com o governo se somou à experiência de hostilidade dentro do próprio grupo. A liberdade de julgar os resultados entrava em conflito com a obrigação de continuar defendendo o presidente.
Na família de Edson, a campanha de 2018 provocou discussões com primos homossexuais. Eles temiam perder direitos e ser perseguidos. O engenheiro dizia acreditar que Bolsonaro não levaria suas declarações hostis às últimas consequências.
Ao se decepcionar com o governo, Edson viu a intolerância aparecer também entre apoiadores. Relatou que qualquer crítica ao presidente era tratada como traição e que chegou a ser chamado de comunista por pessoas com quem antes concordava.
Fontes consultadas (2)
Imagem editorial ilustrativa. Imagens e transparência · Metodologia
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