
Apoiadores de Bolsonaro na rampa do Planalto, em 6 de setembro de 2021. Foto: Marcos Corrêa/PR.
Gisele Aziz participou de atividades políticas de apoio a Jair Bolsonaro e construiu relações naquele ambiente. Quando passou a discordar, a mudança alcançou suas amizades. Em entrevista ao Jornal Opção, publicada em junho de 2021, falou sobre o medo de perder a rede de apoio formada entre os antigos aliados.
Assistente administrativa, Gisele descreveu uma convivência em que criticar o presidente era difícil. A proximidade entre apoiadores tornava a opinião política parte do vínculo pessoal. Uma discordância sobre o governo podia ser recebida como rejeição às pessoas do grupo.
Depois de se afastar, passou a ouvir amigas que também estavam decepcionadas. Elas procuravam alguém com quem pudessem falar sobre as atitudes do presidente sem enfrentar a reação do restante da comunidade.
Os encontros políticos haviam se misturado aos vínculos cotidianos. Quem dividia viagens, mensagens e manifestações também passava a oferecer companhia e reconhecimento. Quando Gisele retirou o apoio, a divergência atingiu essa rotina. Falar do governo deixou de ser apenas discutir uma autoridade distante.
As conversas reservadas com amigas mostram como a aparência de unanimidade pode ser construída. Uma pessoa evita expor a dúvida diante do grupo e procura quem já atravessou a ruptura. O descontentamento circula em particular, enquanto o espaço público continua ocupado por manifestações de lealdade.
A defesa dos tratamentos difundidos naquele período também tinha efeitos fora da discussão política. Na CPI da Pandemia, o depoimento de Mandetta descreveu uma tentativa de ampliar por decreto as indicações da cloroquina. A escolha de um medicamento havia sido levada ao centro do poder, em conflito com o trabalho de avaliação científica.
Para famílias atingidas pela Covid-19, a conversa sobre o governo vinha acompanhada de lembranças de doença, medo e perda. Exigir que alguém defendesse a mesma liderança mesmo depois dessas experiências significava cobrar lealdade acima da própria dor.
Humilhar quem se afasta reforça o mecanismo de isolamento. A pessoa perde o grupo antigo e encontra hostilidade do outro lado. Uma convivência que permita reconhecer erros e responder por eles oferece uma saída concreta desse cerco, sem exigir que o passado desapareça para que uma conversa possa começar.
A pandemia agravou essas tensões. A experiência de adoecimento e perda convivia com discussões sobre o governo e os tratamentos defendidos por seus apoiadores. O sofrimento das pessoas próximas atravessava uma divisão política que já vinha afetando a convivência.
Gisele também se incomodava com a hostilidade de quem tratava antigos eleitores de Bolsonaro como merecedores das consequências do governo. O arrependimento, para ela, vinha acompanhado de tristeza e da preocupação com a possibilidade de recuperar relações.
O receio de exclusão ajuda a compreender o silêncio de quem já começou a discordar. Para Gisele, mudar de opinião significou lidar com a possibilidade de perder amizades construídas em torno de uma escolha que deixara de sustentar.
Gisele contou ao Jornal Opção que já participara de caravanas e manifestações, inclusive quando Bolsonaro visitava Goiás. Antes de romper, havia se afastado de parentes e amigos que votaram em Fernando Haddad. Depois do rompimento, enfrentou conflitos também com quem continuava apoiando Bolsonaro.
Os almoços de domingo, antes uma tradição familiar, tornaram-se raros. Na entrevista, Gisele descreveu fins de semana em que ficava apenas com o marido. A política havia atravessado os laços construídos antes das eleições.
Fontes consultadas (2)
Marcos Corrêa/PR. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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