Em uma tarde fria de junho de 2021, Patrícia Romano foi à avenida Paulista com as duas filhas para pedir a saída de Jair Bolsonaro. A dentista havia votado nele em 2018. Três anos depois, mãe e filhas estavam juntas numa manifestação contra o presidente.
Patrícia contou à Folha de S.Paulo que o descontentamento com os governos do PT havia pesado em sua escolha. O voto provocara sofrimento entre as filhas, especialmente Rafaela, que discordava da decisão.
As conversas continuaram dentro de casa. Rafaela questionava as posições de Bolsonaro sobre o meio ambiente, os povos indígenas e as mulheres. Gabriela, a mais nova, falava sobre o aumento da pobreza. A mãe ouviu as preocupações e passou a reconsiderar o governo.
Como profissional de saúde, Patrícia também se afastou pela condução da pandemia. Criticou a postura do presidente diante das recomendações sanitárias e afirmou que não repetiria o voto de 2018.
As conversas entre mãe e filhas reuniam experiências diferentes do mesmo país. O ambiente, a pobreza e os direitos das mulheres entravam pela relação familiar, enquanto a pandemia chegava também pela experiência profissional da dentista. A avaliação de governo foi se formando nesse encontro entre preocupação pessoal e problema público.
A crise social daquele período ganhou dimensão nos dados do IBGE. Em 2021, 62,5 milhões de pessoas estavam abaixo da linha de pobreza adotada no levantamento. Entre crianças com menos de 14 anos, a proporção chegava a 46,2%. As condições de vida mencionadas nas conversas domésticas tinham alcance nacional.
Na saúde, a cobrança envolvia decisões que podiam ser reconstruídas. Em maio de 2021, Carlos Murillo relatou à CPI que a farmacêutica norte-americana Pfizer fizera ofertas concretas de vacinas em agosto de 2020, meses antes da assinatura do primeiro contrato. A vacinação deixara de ser uma promessa abstrata e passara a ser uma demanda urgente.
Uma família que diverge pode conservar espaço para essa comparação. A insistência das filhas em apresentar preocupações deu à mãe interlocutoras próximas, sem encerrar a relação na lembrança do voto. O vínculo permitiu que novos fatos entrassem numa discussão que poderia ter ficado presa ao resultado de 2018.
A presença conjunta na avenida tornou visível o efeito acumulado dessas conversas. Patrícia já havia ouvido as filhas, acompanhado o governo e feito sua avaliação. O ato público reuniu uma mudança política e a recuperação de uma posição compartilhada dentro de casa.
A ida à Paulista, em 19 de junho, deu forma pública a uma mudança que havia amadurecido em conversas familiares. A manifestação reuniu a mãe e as filhas depois de uma eleição que as colocara em lados diferentes.
A discordância permaneceu tempo suficiente para produzir diálogo. Patrícia pôde rever a escolha ao ouvir pessoas próximas e confrontar as promessas de campanha com o que via acontecer na saúde e na vida do país.
Fontes consultadas (3)
Imagem editorial ilustrativa. Imagens e transparência · Metodologia
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