
Manifestação em defesa da educação pública, em 15 de maio de 2019. Foto: Romerito Pontes.
Rodrigo Bezerra rompeu com Bolsonaro em maio de 2019, poucos meses depois da posse. O pesquisador e doutorando havia votado no presidente e discutido com colegas da universidade para defendê-lo. Os ataques do governo ao conhecimento científico atingiram justamente o trabalho ao qual dedicava a vida.
Ao Jornal Opção, em junho de 2021, Rodrigo criticou a atuação de Abraham Weintraub no Ministério da Educação. A expressão “balbúrdia”, usada pelo ministro para atacar universidades, condensava o desrespeito que enxergava em relação aos pesquisadores.
Para ele, a hostilidade vinha acompanhada da falta de um projeto consistente para a educação. A promessa de um governo diferente dera lugar a decisões e discursos que desqualificavam a universidade pública e a pesquisa.
O conflito de 2019 tinha decisões e datas. O Ministério da Educação anunciou bloqueio de recursos das universidades federais depois de associar instituições à expressão balbúrdia. Atingir verbas de funcionamento compromete atividades que sustentam o trabalho acadêmico, inclusive laboratórios, serviços e manutenção.
Um pesquisador conhece a distância entre o anúncio de um projeto e sua execução. Equipamentos, pessoal, bolsas e continuidade de financiamento fazem parte da produção de conhecimento. Quando a administração troca esse trabalho por ataques à instituição, o prejuízo alcança a formação dos estudantes e a pesquisa que depende dela.
A desqualificação pública acrescenta um custo à falta de recursos. Ela apresenta o trabalho universitário como suspeito e obriga quem pesquisa a responder por caricaturas da profissão. Para Rodrigo, essa hostilidade atingia uma atividade que conhecia por dentro e havia escolhido exercer.
O investimento anterior na defesa de Bolsonaro tornava a revisão mais difícil. As discussões deixavam lembranças e cobravam uma explicação. Ainda assim, a experiência profissional oferecia um critério que a propaganda não conseguia substituir: ele podia comparar o discurso sobre a universidade com o trabalho efetivamente realizado ali.
A ciência depende de condições para corrigir hipóteses e reconhecer resultados. Essa disposição entra em choque com a obrigação política de sustentar uma liderança em qualquer circunstância. Ao retirar o apoio, Rodrigo retomava um modo de julgar que fazia parte da própria profissão.
Rever a posição também teve um custo pessoal. Rodrigo havia defendido Bolsonaro com convicção diante dos colegas. Admitir a mudança significava retornar a discussões difíceis e reconhecer o erro diante de pessoas com quem brigara.
A pandemia reforçou a avaliação que começara na política educacional. A atuação do governo na crise sanitária ampliou sua crítica à falta de preparo e ao tratamento dado à ciência.
Rodrigo retirou o apoio dentro do mesmo ambiente em que antes o defendera. A universidade, alvo da hostilidade do governo, foi também o lugar em que precisou reconstruir seus argumentos e suas relações.
O rompimento teve uma dimensão profissional. Rodrigo citou cortes em projetos científicos e órgãos de fomento, a proposta Future-se e ataques públicos aos pesquisadores. O governo que prometera combater privilégios tratava universidades como adversárias políticas.
Rodrigo relatou que havia brigado com colegas para defender Bolsonaro. Voltar atrás significava admitir o erro diante de pessoas com quem entrara em conflito. Mesmo assim, disse ter deixado o bolsonarismo em maio de 2019, depois dos ataques à universidade.
Fontes consultadas (2)
Romerito Pontes. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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