
Carlos Vereza, à direita, em encontro com artistas no Rio de Janeiro, julho de 2010. Foto: Cacalos Garrastazu/ObritoNews.
Depois de apoiar Jair Bolsonaro em 2018, Carlos Vereza decidiu que não repetiria o voto. Ao conversar com a Veja durante o Festival de Cinema de Vassouras, em 2022, o ator apontou o tratamento dado à cultura como uma razão central para o afastamento.
Vereza conhecera de perto a aproximação entre o governo e artistas de direita. Contou que recebera um convite para assumir a Secretaria da Cultura antes de Regina Duarte, mas recusara. Mais tarde, compareceu à posse da atriz, de quem era amigo. A proximidade pessoal convivia com uma desconfiança crescente sobre os rumos do governo.
Na entrevista, criticou a distância entre o discurso de defesa da família e a prioridade dada à família do presidente. Também acusou Bolsonaro de atacar a arte. Para um ator cuja vida profissional atravessava o teatro, o cinema e a televisão, a política cultural tornara concreta a decepção com a liderança que havia apoiado.
A crise cultural atingia uma cadeia de trabalhadores muito maior que o elenco conhecido pelo público. Um filme emprega técnicos de som, montadores, eletricistas, figurinistas, motoristas e equipes de produção. Um teatro sustenta quem trabalha no palco e quem abre a sala, vende ingressos e mantém o espaço. Quando o setor perde apoio e recebe hostilidade do governo, a conta chega a profissionais que vivem de contratos e projetos.
Em 2022, Bolsonaro vetou integralmente as propostas da Lei Paulo Gustavo e da nova Política Nacional Aldir Blanc. Em julho, o Congresso derrubou os dois vetos. A disputa colocou em atos administrativos o conflito descrito por Vereza: recursos para a retomada cultural encontravam resistência na Presidência, depois de um período em que a pandemia havia fechado salas e interrompido atividades.
Os vetos são decisões verificáveis sobre o papel do Estado. A política cultural organiza financiamento, preservação de acervos e acesso à produção artística. Desqualificar o setor como privilégio de celebridades apaga a vida de quem trabalha nele e a de quem depende de espaços públicos para assistir a uma peça, aprender música ou exibir um filme.
Vereza havia entrado nessa aliança por uma escolha política e encontrou o resultado dela no seu campo de trabalho. O lugar de onde fazia a crítica importava: era um artista que se aproximara do governo, recebera convite para um cargo e depois julgara sua atuação. A relação anterior dava ao rompimento o peso de uma cobrança vinda de dentro.
Ao separar o voto de 2018 da decisão seguinte, o ator recusava transformar uma escolha passada em compromisso permanente. Uma liderança pode receber apoio em determinado contexto e perdê-lo ao governar. Exigir que o eleitor continue preso à primeira justificativa favorece o governante e impede que o resultado do mandato seja cobrado.
A avaliação de 2018 permaneceu diferente da decisão de 2022. Vereza mantinha a explicação que dera ao primeiro voto, mas passou a julgar Bolsonaro pela experiência de governo. O conhecimento adquirido nesses quatro anos alterou sua escolha.
Seu afastamento nasceu dessa comparação entre expectativa e resultado. Depois de acompanhar o governo, o ator decidiu retirar um apoio que antes havia manifestado publicamente.
Fontes consultadas (2)
Cacalos Garrastazu/ObritoNews. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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