
Joice Hasselmann em entrevista na Câmara, julho de 2019. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
Uma montagem pornográfica de Joice Hasselmann chegou ao telefone de seu filho, então com 12 anos. A ex-aliada de Jair Bolsonaro relatou o episódio ao UOL Universa, em outubro de 2020, ao descrever os ataques que enfrentara depois do rompimento com o governo.
Joice havia sido uma das vozes mais visíveis da campanha de 2018. Eleita deputada federal por São Paulo com mais de um milhão de votos, assumiu a liderança do governo no Congresso. Sua projeção política estava ligada à vitória de Bolsonaro e à defesa pública do presidente.
A aliança se desfez em outubro de 2019, durante as disputas internas do PSL. Joice se opôs à mudança de liderança partidária defendida por Bolsonaro e seus filhos. A divergência por espaço e comando foi seguida por uma campanha de hostilidade nas redes.
Na entrevista ao Universa, descreveu montagens de seu rosto, ofensas à aparência e ataques à sexualidade. Ao alcançar o filho, a agressão digital atravessou a fronteira entre a exposição de uma parlamentar e a vida de uma criança.
Antes desses episódios, Joice havia minimizado discussões sobre machismo e criticado movimentos feministas. Depois, afirmou que a experiência a fizera reconhecer a violência de gênero na política. A imagem pública de uma mulher sempre forte também dificultara admitir o sofrimento que estava vivendo.
O ataque sexualizado tem uma função política. Ele desloca a discussão sobre o mandato para a aparência e a intimidade da mulher. Quem pretendia responder a uma divergência passa a produzir humilhação; quem recebe a imagem é convidado a participar dessa humilhação, em vez de examinar o que a parlamentar disse.
O alcance familiar acrescenta pressão. Uma criança que recebe conteúdo desse tipo é atingida numa relação sobre a qual não fez escolha pública. A agressão passa a cercar a vítima também em casa e transforma pessoas próximas em alvos indiretos da disputa.
Em agosto de 2021, a Lei 14.192 estabeleceu normas de combate à violência política contra mulheres. Entre as condutas previstas estão constranger, humilhar, perseguir e ameaçar candidatas ou detentoras de mandato por sua condição de mulher, com a finalidade de dificultar a atuação política. O texto deu forma legal a um problema que já atravessava a experiência de parlamentares.
A cronologia de Joice também expõe o custo de ter minimizado essa violência enquanto estava protegida pela aliança. O repertório de ofensas se tornou mais visível para ela depois da ruptura. A hostilidade que antes parecia dirigida apenas a adversárias passou a alcançar uma mulher que contribuíra para a força do próprio grupo.
A punição pública de uma dissidente atinge outras pessoas que observam a cena. Elas aprendem o preço de divergir sem precisar sofrer o mesmo ataque. Uma campanha de humilhação pode, assim, produzir silêncio para além da vítima imediata, estreitando o espaço de crítica dentro do movimento.
Em paralelo, passou a criticar as alianças de Bolsonaro com o Centrão e acusou pessoas do entorno presidencial de promover ataques digitais. A ruptura envolveu a perda de influência no governo e a transformação de antigos aliados em adversários.
Na entrevista de outubro de 2020, Joice relembrou a imagem de força que cultivara desde a campanha eleitoral. Tinha se apresentado como adversária do feminismo e rejeitado a ideia de que a violência política contra mulheres pudesse atingi-la. O rompimento com o governo e a campanha de humilhação que se seguiu a obrigaram a reconsiderar essas posições.
Depois de enfrentar montagens sexuais, insultos e ameaças, a ex-líder governista falou publicamente sobre o impacto daquele período em sua saúde. O sofrimento já não se limitava aos embates do plenário: alcançava a casa, a rotina e a relação com o filho.
Em abril de 2020, Joice chegou a protocolar um pedido de impeachment de Bolsonaro. A deputada que havia defendido a campanha presidencial passara a confrontar politicamente o governo cuja liderança exercera na Câmara.
Os ataques descritos por Joice tinham como alvo sua condição de mulher e chegaram à família. Uma divergência partidária passou a ser acompanhada de humilhação sexual e pressão sobre quem estava próximo dela.
Fontes consultadas (3)
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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