
Otoni de Paula na Câmara dos Deputados. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
Em outubro de 2024, Otoni de Paula orou por Lula em uma cerimônia no Palácio do Planalto. A reação de antigos aliados foi imediata. O deputado federal e pastor, que havia feito campanha por Jair Bolsonaro, passou a receber ataques por um gesto que considerava parte de sua obrigação religiosa.
À Folha de S.Paulo, explicou que continuava crítico ao governo e conservador. Queria, porém, preservar a relação da igreja com as autoridades e recusava tratar o presidente como inimigo da comunidade religiosa. A oração revelou um conflito que vinha se acumulando nos bastidores de sua atuação política.
Otoni reconheceu sua participação no bolsonarismo e na mobilização eleitoral dentro de igrejas. Ao declarar o afastamento, criticou a exigência de concordância com a liderança e a transformação de indicações políticas em ordens a serem seguidas pelos apoiadores.

Para ele, a identidade conservadora existia antes de Bolsonaro e podia continuar depois da ruptura. Manteve posições de direita, críticas ao PT e respeito por ideias que compartilhara com o ex-presidente. Passou a rejeitar a fidelidade irrestrita ao movimento.
A controvérsia começou com um gesto praticado diante de câmeras, numa cerimônia do Estado. Otoni dirigiu a oração à autoridade que ocupava a Presidência. A reação vinculou esse gesto a uma obrigação de fidelidade a Bolsonaro, como se reconhecer a existência de um governo eleito significasse entregar a ele todas as próprias convicções.
Esse raciocínio oferece à liderança política um poder que vai além da votação. Ela passa a definir quais contatos, palavras e gestos são permitidos a quem pertence ao grupo. Um pastor pode continuar pregando, discordando do governo e defendendo suas posições, mas recebe a cobrança de obedecer a uma fronteira partidária.
A liberdade de consciência protegida pela Constituição alcança justamente esse espaço de decisão individual. A relação entre fé e vida pública reúne valores, interpretações e necessidades diferentes. Quando uma escolha partidária vira condição para ser reconhecido como integrante da comunidade, a autoridade política se apropria de um vínculo que não lhe pertence.
Otoni conhecia essa mobilização por ter participado dela. Sua crítica ao uso eleitoral das igrejas carrega uma cobrança sobre a própria trajetória: o ambiente que ajudara a fortalecer passara a puni-lo por uma atitude que considerava coerente com o ofício religioso.
O rompimento ganhou importância por ocorrer sem a substituição de toda a identidade do personagem. Pastor, conservador e parlamentar de direita, ele continuou a ocupar esses lugares enquanto recusava obediência irrestrita. A reação dos antigos aliados evidenciou que o conflito estava na autonomia de julgar e agir.
Em entrevistas ao UOL e ao PlatôBR, em agosto de 2025, voltou a falar sobre o uso político das igrejas e sobre o custo de enfrentar antigos aliados. Era chamado de traidor, mas insistia na autonomia de suas convicções religiosas e políticas.
A distância em relação ao bolsonarismo conviveu com críticas a Lula. Em fevereiro de 2026, ao comentar um desfile de Carnaval em homenagem ao presidente, afirmou à CNN Brasil que a insatisfação também alcançava conservadores afastados do movimento. Em junho, disse ao Congresso em Foco que a igreja não pertencia a Lula nem a Bolsonaro.
Em entrevista à Folha, Otoni admitiu que participou do uso eleitoral das igrejas em 2022. Contou ter mudado de posição ao perceber que as promessas feitas nos bastidores do movimento não correspondiam ao discurso repetido em público. A autocrítica partiu de alguém que havia ajudado a divulgar essas mensagens diante de fiéis.
Ele também falou de episódios que hoje considera excessivos. Já havia atacado o ministro Alexandre de Moraes e usado expressões agressivas contra adversários. Ao rever esse comportamento, disse que se arrependia da linguagem, embora mantivesse críticas políticas. A distinção entre discordar e hostilizar passou a ocupar parte de seu discurso religioso.
Em fevereiro de 2025, durante a disputa por espaço na bancada evangélica, Otoni relatou ter sido chamado de 'comunista gospel'. Segundo o PlatôBR, adversários espalhavam a versão de que ele havia se tornado lulista depois de participar de entrevistas e eventos institucionais. A acusação buscava transformar uma divergência interna numa ruptura com a identidade evangélica e conservadora.
Em agosto daquele ano, voltou a defender, em entrevistas ao UOL e ao PlatôBR, a autonomia das igrejas diante de políticos. A crítica a Silas Malafaia ganhou destaque após o avanço das investigações sobre tentativas de interferência no julgamento da trama golpista. Otoni argumentou que os templos não deveriam servir de extensão das disputas de líderes partidários.
Em junho de 2026, ao Congresso em Foco, resumiu sua objeção: quando uma igreja assume uma ideologia como identidade, abandona o lugar de comunidade religiosa para se comportar como uma organização política. A fala veio de um pastor que continuava na direita, mas já não aceitava que a adesão a Bolsonaro fosse cobrada como demonstração de fé.
Essa trajetória põe em evidência a disputa pelo papel do púlpito. Uma comunidade de fé reúne pessoas, histórias e escolhas diferentes. Quando a liderança política passa a cobrar obediência de todos, a autonomia religiosa dos fiéis fica subordinada a uma aliança partidária.
Em entrevista à Folha em outubro de 2024, Otoni explicou a ruptura em termos pessoais: queria continuar decidindo seus votos e opiniões sem receber ordens de Bolsonaro. O conservadorismo, argumentou, existia antes do ex-presidente e continuaria a existir depois dele.
Na mesma conversa, descreveu a dificuldade do bolsonarismo em aceitar autocrítica. Otoni dizia respeitar Bolsonaro, mas criticava a exigência de concordar com cada pensamento e indicação eleitoral do líder. Era esse grau de obediência que já não aceitava.
Otoni sustentou o rompimento enquanto continuava pastor e conservador. A reação à oração mostrou a intensidade da cobrança: até um gesto religioso dirigido ao presidente era recebido como quebra de lealdade política.
Fontes consultadas (6)
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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