
Montagem do hospital de campanha do Anhembi, em abril de 2020, antes do início das internações. Foto: Edson Lopes Jr./Secom.
Em junho de 2020, a enfermeira identificada como Carla contou à BBC como a entrada de deputados no hospital de campanha do Anhembi, em São Paulo, atingira sua equipe. Eles afirmavam fiscalizar o local; ela descreveu desrespeito aos profissionais e risco para o atendimento.
O nome foi alterado pela reportagem para preservar sua identidade. Carla trabalhava num espaço preparado para receber pacientes com Covid-19 e relatou a entrada de pessoas sem a proteção adequada. Depois do episódio, temia que novas invasões ocorressem.
Na mesma semana, Bolsonaro incentivou apoiadores a entrar em hospitais e filmar leitos. A fala aumentou a preocupação da enfermeira com a repetição da cena. Uma disputa política passava a ameaçar o ambiente em que ela precisava trabalhar.
Carla explicou que o hospital abria setores conforme a demanda. Uma área desocupada naquele momento não representava a situação de todas as alas. Segundo seu relato, imagens desses espaços foram usadas para sustentar a ideia de que o hospital inteiro estava vazio.
O recorte retirava da cena a organização do serviço. Montar um hospital de campanha inclui preparar capacidade para pacientes que ainda chegarão e distribuir equipes e materiais conforme a necessidade. Uma imagem isolada de leitos não permite reconstruir esse funcionamento.
A pressão atingia também quem estava internado. Um hospital precisa controlar circulação e preservar a privacidade das pessoas atendidas. A entrada de visitantes que pretendem produzir vídeos acrescenta tarefas e riscos a uma equipe já ocupada com a emergência.
A Associação Paulista de Medicina criticou o incentivo às invasões e destacou a circulação restrita, a segurança e a privacidade no ambiente hospitalar. Fiscalizar recursos públicos depende de acesso adequado a informações e de responsabilidade com o serviço que continua funcionando.
O depoimento de Carla acrescenta à história da pandemia a experiência de quem precisava cuidar dos pacientes enquanto respondia à suspeita política. A equipe era obrigada a explicar a própria rotina a pessoas que chegavam filmando e questionando.
A violência desse ambiente aparece no medo de voltar ao trabalho e reencontrar a invasão. A crise sanitária já trazia doença, exaustão e exposição. O ataque à credibilidade dos profissionais acrescentava uma pressão que vinha da disputa pelo relato público da pandemia.
Fontes consultadas (2)
Edson Lopes Jr./Secom. Origem da imagem Imagens e transparência · Metodologia
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