
Manifestação em defesa da educação pública, em 15 de maio de 2019. Foto: Romerito Pontes.
Daniel Silva cresceu numa família em que a política sempre esteve presente. Sua mãe participou de movimentos pelos direitos das mulheres nos anos 1980. Mesmo assim, em 2018, Daniel votou em Jair Bolsonaro. O professor de artes marciais, hoje com 27 anos, contou sua trajetória à Folha de S.Paulo numa reportagem publicada em outubro de 2026, em São Luís, no Maranhão.
Daniel ensina jiu-jítsu, muay thai e boxe e também trabalha como motorista de aplicativo. As duas atividades o colocam em contato com experiências muito diferentes: a disciplina das academias e a rotina de quem depende de trabalho diário para pagar as contas.
A escolha de 2018 teve uma razão pessoal. Diante de uma tragédia familiar, Daniel se aproximou do discurso de endurecimento penal que associava a Bolsonaro. A defesa de punições mais severas parecia oferecer uma resposta imediata a uma experiência de violência que havia atingido sua vida.
Com o passar do tempo, sua avaliação mudou. O que antes aparecia como resposta à insegurança passou a ser confrontado com outros aspectos do discurso político: a maneira de tratar minorias, a violência contra mulheres e as relações de poder dentro do próprio universo das lutas marciais.
Na entrevista à Folha, Daniel criticou episódios de machismo e escândalos que conheceu no meio das academias. Também falou sobre a ausência do poder público em bairros populares de São Luís, incluindo a Liberdade. Essas questões ampliaram o campo pelo qual passou a julgar propostas políticas.
A influência da mãe aparece como parte dessa trajetória. A história de militância pelos direitos das mulheres oferecia a Daniel uma referência familiar que não se encaixava inteiramente no discurso político de 2018. Rever o voto anterior também significou reconsiderar como proteger pessoas cuja vida não correspondia à experiência dele.
Em 2022, Daniel votou em Lula. Quatro anos depois, em outubro de 2026, afirmou à Folha que pretendia repetir a escolha. A declaração foi dada durante uma nova disputa presidencial e registra sua posição naquele momento.
Seu depoimento mostra uma mudança que atravessa a experiência concreta de trabalho e convivência. Ele continuou atuando como professor de artes marciais, mas deixou de aceitar que a defesa de segurança pública exigisse indiferença diante de desigualdades e discriminação.
Daniel não é uma liderança partidária nacional nem alguém que acompanhou o governo pelos bastidores de Brasília. Sua história se desenvolve numa cidade, numa família e em espaços de trabalho. É justamente essa dimensão cotidiana que distingue seu testemunho dos rompimentos de deputados e figuras públicas.
A entrevista publicada pela Folha documenta um eleitor que reconsiderou uma escolha feita em circunstâncias dolorosas. O percurso tem etapas identificáveis — voto em 2018, mudança de avaliação, escolha em 2022 e nova declaração em 2026 — e permite conhecer suas razões sem reduzi-las a uma conversão instantânea.
Fontes consultadas (1)
Romerito Pontes. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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