
Apoiadores de Bolsonaro na rampa do Planalto, em 6 de setembro de 2021. Foto: Marcos Corrêa/PR.
Em maio de 2019, pouco mais de quatro meses após a posse de Jair Bolsonaro, Lobão já falava publicamente como ex-apoiador do presidente. O músico, que ajudara a dar visibilidade à candidatura entre setores da direita em 2018, passou a criticar o governo e a influência de Olavo de Carvalho. O rompimento ganhou destaque numa entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 23 de maio daquele ano.
Uma das primeiras discordâncias dizia respeito ao tratamento dispensado a estudantes e universidades. Quando Bolsonaro descreveu manifestantes da educação como massa de manobra, Lobão reagiu contra a expressão. A discussão ia além de uma frase: colocava em confronto a expectativa de uma renovação política e a maneira como o presidente tratava quem discordava dele.
Antes da eleição, o cantor estivera entre os artistas que criticavam governos do PT e defenderam a candidatura de Bolsonaro como alternativa. Sua trajetória política, porém, já incluía mudanças de lado e confrontos públicos. À Folha, explicou que não considerava o vínculo com um político uma relação de pertencimento permanente. Para ele, governantes eram empregados eleitos, sujeitos a cobrança e desapontamento.
A crítica atingiu também Olavo de Carvalho. Lobão mantivera proximidade intelectual com o escritor anos antes, mas em 2019 passou a identificar na atuação de Olavo e de seus seguidores uma fonte de hostilidade contra pessoas que deixavam de acompanhar o governo. A acusação de traição se tornou parte do ambiente em que discutia sua mudança de posição.
Em entrevista publicada pelo UOL em maio de 2019, o músico aprofundou a crítica. Relatou decepção com a condução do Executivo, com a participação dos filhos do presidente e com a ausência da capacidade administrativa que esperava da nova gestão. Seu afastamento, portanto, apareceu antes da pandemia e antes dos conflitos eleitorais de 2022.
Em fevereiro de 2020, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo reproduzida pelo UOL, Lobão defendeu que Bolsonaro deixasse o cargo. Chamou a atuação presidencial de uma quebra das promessas feitas na campanha, especialmente no campo do combate à corrupção. Também voltou a criticar a influência de Olavo na mobilização dos apoiadores.
Na mesma entrevista, recusou dizer que se arrependia do voto de 2018. Justificou aquela escolha pelo desejo de impedir o retorno do PT ao governo. Essa distinção precisa permanecer no relato: Lobão havia rompido com Bolsonaro, mas continuava defendendo sua leitura da disputa eleitoral anterior.
Em agosto de 2021, ao UOL Entrevista, manteve críticas tanto a Bolsonaro quanto a Lula e disse que não considerava errada sua decisão de 2018. Sua posição não cabia numa narrativa de conversão de direita para esquerda. O vínculo com o bolsonarismo terminara sem que ele aderisse ao campo político rival.
A trajetória ganhou novo registro em agosto de 2026, quando Lobão falou à Folha sobre sua desilusão com os projetos políticos que apoiara. Disse não desejar voltar a atuar em campanhas eleitorais. A entrevista mais recente acrescenta distância temporal à ruptura iniciada em 2019, sem transformar seu desencanto geral em filiação a outro movimento.
O caso mostra uma forma pública de afastamento que atravessa disputas culturais e redes sociais. A mudança de opinião não apaga o voto anterior, nem obriga a pessoa a adotar todas as posições de seus críticos. O ponto documentado é o percurso: apoio em 2018, crítica em 2019, defesa do afastamento do presidente em 2020 e desilusão política reiterada em entrevistas posteriores.
Fontes consultadas (5)
Marcos Corrêa/PR. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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