
Santos Cruz em Brasília, em 8 de maio de 2019. Foto: Isac Nóbrega/PR.
Depois da derrota de Bolsonaro em 2022, o general Carlos Alberto Santos Cruz criticou os protestos diante dos quartéis e a expectativa de uma intervenção militar. Ao UOL, em 3 de novembro, afirmou que o governo havia criado uma narrativa de militares como salvadores da pátria.
Santos Cruz conhecia a administração por dentro. Assumira a Secretaria de Governo no início de 2019 e fora demitido em junho, em meio às disputas que envolviam os filhos do presidente e Olavo de Carvalho. A saída abriu um percurso de críticas cada vez mais públicas.
Na entrevista de novembro de 2022, apontou o uso de expressões que confundiam as Forças Armadas com a pessoa do presidente. A apropriação da instituição alimentava a ideia de que ela devia responder à vontade política de um grupo.
Em janeiro de 2023, à CNN, voltou a separar a direita do comportamento de Bolsonaro. Defendeu uma oposição fiscalizadora e responsável e criticou o extremismo, a exposição midiática permanente e o silêncio do presidente depois da derrota.
A posição tinha um peso particular por vir de um general que integrara o governo. Ela recusava a utilização da identidade militar como justificativa para interromper a alternância. O uniforme e a carreira de uma pessoa não tornam sua preferência política uma ordem para o país.
A expectativa de salvação desloca a responsabilidade do cidadão. Em vez de disputar políticas, organizar oposição e fiscalizar o governo, o grupo espera que uma instituição armada imponha o resultado que deseja. A força passa a ocupar o lugar da decisão coletiva.
Essa lógica também compromete a própria instituição militar. Associá-la a uma liderança e a seus seguidores retira a distância que permite cumprir funções de Estado. A mudança de governo passa a ser tratada como ameaça à corporação, embora a alternância seja parte da ordem constitucional.
Os acampamentos de 2022 colocaram essa confusão no espaço público. A derrota eleitoral virou cobrança dirigida aos quartéis. Santos Cruz contestou a narrativa que sustentava essa cobrança e atribuiu a proteção do país ao povo e às instituições.
Sua crítica preservava a existência de uma oposição de direita, mas retirava dela o pretexto da tutela militar. A responsabilidade política retornava aos partidos, aos representantes e aos cidadãos, dentro de regras que permitem contestar o governo sem destruir a possibilidade de substituí-lo.
Fontes consultadas (3)
Isac Nóbrega/PR. Origem da imagem · Licença · Recorte para a capa. Imagens e transparência · Metodologia
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