
Flávio Bolsonaro levantou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado de Tarcísio de Freitas durante uma caminhada no centro de São Paulo nesta segunda-feira, 28 de setembro. A peça de crochê foi entregue por uma apoiadora, e os dois candidatos a ergueram diante das câmeras. O gesto durou poucos segundos, mas colocou a campanha de Flávio diante de uma contradição que pode sair cara na reta final.
A cena foi uma tentativa evidente de conter o desgaste entre católicos depois da circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Não existe proposta do candidato nesse sentido, e nenhum projeto com esse objetivo tramita no Congresso. A mentira precisa ser chamada pelo nome, inclusive quando prejudica um adversário de Lula.
Uma resposta para católicos, um problema para evangélicos
Ao tentar provar respeito à tradição católica, porém, o candidato evangélico abriu outra frente de desgaste. Parte das igrejas protestantes reconhece Maria como mãe de Jesus, mas rejeita a veneração de santos e o uso de imagens como objeto de devoção. Nas redes, eleitores evangélicos criticaram a cena, e o comentarista Valdo Cruz chamou atenção na GloboNews para a ala que condena totalmente imagens de santos.
Isso não autoriza dizer que os evangélicos abandonaram Flávio. Até agora, nenhuma pesquisa mediu o efeito específico da fotografia. Mas a reação existe e mostra o risco político: para reparar o dano entre católicos, a campanha produziu uma imagem que pode soar como oportunismo ou desvio doutrinário para parte de sua base mais fiel.
Os números já acendem um sinal
A Quaest divulgada também nesta segunda-feira, com entrevistas realizadas de 24 a 27 de setembro, mostra Flávio oscilando de 49% para 46% entre os evangélicos no primeiro turno. Lula avançou de 23% para 27%. No segundo turno, Flávio passou de 58% para 54%, enquanto Lula foi de 28% para 30%.
A margem de erro do recorte evangélico é de quatro pontos percentuais. Portanto, as variações estão dentro da margem e não podem ser atribuídas nem à polêmica da Padroeira nem à fotografia, feita depois do encerramento das entrevistas. A pesquisa mostra que Flávio continua liderando nesse segmento, mas Lula ganhou terreno num momento em que religião voltou ao centro da campanha.
Entre os católicos, Lula chegou a 48% no primeiro turno, cinco pontos acima da rodada anterior. Flávio marcou 29%, oscilação de dois pontos. No segundo turno, Lula alcançou 50% entre os católicos, contra 37% do adversário. A tentativa de Flávio de responder à crise religiosa acontece, portanto, quando Lula amplia sua força entre fiéis católicos e também avança numericamente entre evangélicos.
Flávio usa a santa para tentar encerrar a crise
Um levantamento da AP Exata sobre 150 mil menções publicadas entre 24 e 26 de setembro encontrou críticas à fake news em 25,9% das mensagens e indignação com a suposta ameaça à Padroeira em 19,8%. Receios sobre a influência evangélica num eventual governo Flávio apareceram em 9,9%; críticas diretas à devoção de imagens, em 2,2%. A controvérsia é ampla, mas ainda não há medida confiável de seu impacto nas urnas.
Num país plural, o respeito entre religiões é indispensável. Flávio transformou a fé em instrumento de emergência eleitoral ao acusar a CNBB sem apresentar provas num dia, agradecer à entidade no outro e erguer uma santa diante das câmeras para tentar encerrar uma crise.
Lula entra nessa disputa com vantagem política e moral quando defende um Brasil em que católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, outras tradições e pessoas sem religião tenham a mesma liberdade. O Estado é laico justamente para proteger todas as crenças. Fé merece respeito verdadeiro, não conveniência de campanha. E, na reta final, cada contradição de Flávio ajuda o país a enxergar a diferença entre governar para todos e usar símbolos para sobreviver até a próxima pesquisa.
Fontes consultadas (5)
- RedeTV!, Flávio e Tarcísio erguem imagem de Nossa Senhora em ato
- Correio Braziliense, Flávio ergue imagem de Nossa Senhora em ato com Tarcísio
- CNN Brasil, levantamento da AP Exata sobre a controvérsia
- JC, recorte religioso da pesquisa Quaest
- Folha de S.Paulo, diferenças entre tradições católica e evangélica
