
Um levantamento publicado pelo ICL Notícias, assinado por Cleber Lourenço, colocou sob uma mesma moldura episódios que vinham aparecendo separados em investigações, reportagens e pedidos parlamentares envolvendo Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. O eixo da apuração é a relação entre o senador e o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio, citado em frentes que passam pelo Banco Master, pelas fraudes contra aposentados do INSS, pelo caso Covaxin e por personagens ligados ao assassinato de Marielle Franco.
A reportagem do ICL trata de uma petição apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. O pedido quer que a Corte investigue se Willer e empresas vinculadas a ele atuaram como “laranja” ou “testa de ferro” de Flávio, mantendo em nome próprio bens usados pelo senador. A suspeita, como registra o próprio texto, não é apresentada como fato comprovado. O que se pede é que a Polícia Federal cruze dados financeiros, fiscais, societários e patrimoniais para verificar quem paga, quem usa e quem se beneficia dos bens.
Petição no STF tenta juntar peças de Covaxin, INSS e Banco Master
No caso Covaxin, a conexão remonta à CPI da Pandemia. Flávio participou de uma reunião, em outubro de 2020, entre Gustavo Montezano, então presidente do BNDES, e Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos. Meses depois, a Precisa intermediou o contrato de R$ 1,614 bilhão para fornecimento de 20 milhões de doses da vacina indiana ao Ministério da Saúde. O contrato virou um dos focos da CPI.
Quando a reunião veio a público, Flávio confirmou que havia pedido a Montezano que recebesse Maximiano, disse conhecer o empresário por “amigos em comum em Brasília” e negou relação comercial ou financeira com ele. Segundo o ICL, a CPI chegou a preparar um requerimento à Receita Federal para mapear relações de 11 pessoas e empresas, entre elas Willer Tomaz, Maximiano, Frederick Wassef e Ricardo Barros. A diligência não avançou porque o requerimento foi tornado sem efeito por “erro material”. A nova petição pede que essa linha seja retomada e atualizada até 2026.
No eixo do INSS, a apuração recupera elementos da Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões. O ICL afirma que Willer foi descrito pela Polícia Federal, nos documentos citados na petição, como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de um núcleo político investigado. A reportagem também aponta que Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio, declarou ter sido indicada por Willer. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em uma offshore.
Outra frente revelada pelo Núcleo Investigativo do ICL informou que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes da qual Flávio é sócio, tinha registro no mesmo endereço de pelo menos 16 empresas associadas ao Careca do INSS, em Águas Claras, no Distrito Federal. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou, com base nessa reportagem, que pediria ao ministro André Mendonça a inclusão de Flávio em apuração relacionada ao esquema. A defesa do senador tem tratado as iniciativas como ofensiva política e nega irregularidades.

Apartamento em São Paulo e notas de R$ 500 mil aproximam caso do Master
O Banco Master entra no levantamento por mais de um caminho. A petição citada pelo ICL menciona um apartamento na Vila Nova Conceição, em São Paulo, usado por Flávio durante a campanha presidencial. A revista piauí revelou que o imóvel pertenceu a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, e foi vendido à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Willer Tomaz. Zettel comprou o apartamento por R$ 5,5 milhões em abril de 2025 e o vendeu por R$ 3,5 milhões em fevereiro de 2026, uma perda nominal de R$ 2 milhões.
A piauí informou ter confirmado a presença de Flávio no edifício com moradores e testemunhas. Willer primeiro negou, segundo a revista, que o senador tivesse usado o imóvel. Depois, afirmou em nota que não conhece Zettel nem Vorcaro e que jamais manteve relação pessoal, comercial ou societária com eles. A assessoria de Flávio disse à piauí que o candidato hospedou-se apenas em hotéis da região e não respondeu, até a publicação, qual uso fez do apartamento.
Há ainda o episódio das notas fiscais. Reportagem do Estadão reproduzida pelo UOL afirmou que o escritório de advocacia de Flávio recebeu R$ 500 mil da Contabil Correa Contabilidade & Auditoria, empresa cujo sócio-administrador também era diretor da Copenhagen, ligada ao conglomerado do Master. O senador confirmou ter prestado serviços advocatícios por contrato privado e legal, mas não detalhou a natureza dos serviços. Outras duas notas de R$ 500 mil emitidas para a Copenhagen foram canceladas. Flávio disse que não aceitou trabalhar para a empresa e afirmou que tentavam “marginalizar a advocacia”.
O Intercept Brasil já havia revelado conversas sobre pedido de dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Depois da publicação, Flávio admitiu ter conhecido o banqueiro em dezembro de 2024 e ter buscado patrocínio privado para o longa. Negou ter oferecido vantagens, intermediado negócios com governo ou recebido benefício pessoal.
Diálogos sobre emenda levam a Marielle e aumentam pressão eleitoral
O bloco mais sensível politicamente vem do caso Marielle. Reportagem da Folhapress publicada pelo ICL mostrou que uma assessora de Flávio tratou, em 2023, da liberação de emenda parlamentar com Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por envolvimento no assassinato de Marielle Franco. Segundo a reportagem, R$ 199 mil foram destinados por Flávio a um projeto de futebol do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, localizado na Taquara, área de influência dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados como mandantes do crime.
A Polícia Federal vê indícios de desvios nos repasses, de acordo com a reportagem. A assessoria de Flávio disse que os recursos foram enviados dentro da lei, seguiram critérios técnicos do Ministério do Esporte, tiveram notas fiscais apresentadas pela entidade executora e que eventual irregularidade deve ser apurada pelos órgãos de controle, não atribuída ao parlamentar automaticamente.
O efeito eleitoral do levantamento está no acúmulo. Isoladamente, cada frente tem grau diferente de prova, defesa e conexão direta com Flávio. Reunidas, elas alimentam uma narrativa de investigação patrimonial e política contra o candidato do PL na reta final da disputa presidencial. O avanço jurídico, porém, depende de decisão do STF, manifestação da Procuradoria-Geral da República e eventual diligência da Polícia Federal. Até lá, o que existe é um conjunto de fatos documentados, suspeitas em petição e respostas defensivas ainda em disputa.
Fontes consultadas (8)
- ICL Notícias, Cleber Lourenço, 22/09/2026
- ICL Notícias, Alice Maciel, 12/09/2026
- Revista piauí, Ana Clara Costa, João Batista Jr. e Breno Pires, 16/09/2026
- UOL/Estadão, 22/07/2026
- ICL Notícias/Folhapress, 22/09/2026
- Agência Senado, 28/03/2026
- ICL Notícias, Alice Maciel e Paulo Motoryn, 23/09/2026
- The Intercept Brasil, 13/05/2026
